sábado, 3 de março de 2012

I Am Legend

José da Silva olha fixamente para um prédio, mantendo um ar seriíssimo com o seu chapéu alentejano e um colete de guardador de rebanhos. A sua mão estende-se à solene réstia de companheirismo, uma pequena ovelha, que junta a uma quase intolerável solidão compõe a herança de um vírus falhado. José é uma lenda.

Em tempos feliz guardador de rebanhos em Amareleja, J.S. sofreu o impreterível destino de que o Mundo, no seu sentido mesmo lato1, lhe tomasse os seus bens mais preciosos do mundo – as suas outras duas ovelhas2 – bem como todo o resto da humanidade. E assim ele vive, caçando e coçando com a sua ovelhinha Maxi, todo o tipo de bicho que ousa partilhar o mundo com ele, ou neste particular momento, a Avenida da República em caminho ao Saldanha3. “A filha da Arlinda veio para a cidade para ser médica. Aqui vou curar o mundo”, dizia em toda a sua eloquência o senhor José da Silva.

Alegre de dia com a sua ovelha, passeando na Damaia ou nas embaixadas do Restelo, ou jogando golfe como um malandro em cima dos dois submarinos do senhor Paulo Portas (agora, em 2017), a felicidade punha-se com o sol. Quando o seu Casio apitava J.S. sabia que uma quantidade de zumbis vampiros mutantes ex-funcionários públicos infectados viriam “taxá-lo”. Estes senhores (e senhoras), um tanto ou pouco feios segundo os parâmetros da L'Oreal poderiam perfeitamente viver durante o dia, não fosse o facto de a luz do Sol se reflectir na sua pele, o que não os mata de forma alguma mas causa uma incadescência nervosa que se tornaria extremamente incómoda. Assim, ao cair da Noite, J.S. enfia-se numa banheira e reza umas tantas Avés Maria enquanto do lado de fora das paredes se ouvem cantos e danças tradicionais.

Entretanto afinal os pseudo-zombies a la Resident Evil são inteligentes e querem o senhor José para propósitos incertos mas assumidamente alimentícios. Mas este não se deixa apanhar, graças aos fiéis concelhos dos manequins de uma loja Zara, e chega mesmo a capturar um dos zumbis deixando um queijinho numa ratoeira e reproduzindo freneticamente “iiiiihhhhh, iiiiiihhhh!!” – o que se assume que não funcionaria, não fosse o senhor da Silva um mestre em barulhos irresistivelmente irritantes.

Prosseguindo, em tom menos relevante, matam-lhe a ovelha, o que leva a uma cena dramática de asfixia e um adeus necrófilo. Ele descobre também que afinal não está sozinho na sua essência humana, deparando-se com uma mulher e um menino pequeno (portugueses, e não americanos). A expectativa de um encontro emocional desfaz-se quando “o Zé” os confunde com alienisnas que querem roubar as suas ovelhas (que por acaso já estavam mortas) e mata os dois sobreviventes a sangue frio com uma p*** de uma inchada. Boa Zé.
E viveu sozinho para sempre

1 Incluímos os Estados Unidos nesta definição, mas a história não é passada nos grandes E.U.A. porque um sobrevivente de uma epidemia não é necessariamente americano só porque um filme é realizado em Hollywood, certo? Portanto sim, os seres humanos americanos, teoricamente e para qualquer relevância desta história, poderão muito bem ter morrido em plena completude. Falecidos. Ou então alterados por um vírus como irei revelar no próximo parágrafo, mas sem dúvida que o povo americano não toma nem relevância nem importância neste caso, porque afinal de contas não estamos a falar de guerra.

2O que totaliza três ovelhas no período pré-epidémico, o que na verdade dificilmente faz um pastor. Portanto consideremos antes que eram trinta e duas ovelhas, incluindo Leandra, a ovelha mais lenta com uma pequena deficiência motora e que apareceu uma vez grávida de uma forma surpreendente e miraculosa dado que todos os carneiros eram castrados

3Este pastor tornou-se particularmente moderno quando o mundo cedeu ao tal vírus, passando a dar-se ocasionalmente ao prazer de “roubar” uns enlatados do Dolce Vita Monumental, ou quando particularmente endiabrado, também do Atrium Saldanha.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Bíblia Para Totós

Para muitos a religião é a criação de Deus, o dogmático profetismo que nos guia; para outros trata-se de um pequenino hipopótamo cor-de-rosa em narcóticos. Veramente, nem uma nem outra: a religião é bastante lógica. Assumir que Bíblia, Corão e amigos são um poço infindável de arco-íris literário é uma tentação de quase lascívia, mas inválida. Será também um tanto ou pouco estúpido considerar possível que tudo aquilo que a religião diz é uma paráfrase directa de um barbudo nas nuvens. Aquilo que todos terão que entender é que a religião é humana, e como qualquer coisa de humano trará consigo o bom, o mau, o feio e simplesmente estúpido.

Mas não julguemos sem consideração. O Corão, por exemplo, é altamente compatível com a ciência em muitos sentidos. A Bíblia é um bom conto de fadas escrito por sabe-se lá realmente quem, reescrita por mais gente que a população chinesa, deturpada por mais uma dúzia de macacos e representada por mais de três mil versões. Se Deus escreveu a Bíblia, das duas uma: ou metade da população terrena e respectivas mães receberam uma mensagem do senhor ou ele tomou a liberdade de possuir mais gente que Giancomo Casanova.

Ora, estas crenças incitadoras de muitas guerras, um pouco de compaixão e muitos donativos financeiros têm uma possível base virtuosa. Até a bíblia satânica inclui uns pedaços rechonchudos de sabedoria de vida que muitos psicólogos poderão certificar. Quando o Islão diz que tens que tomar um banho depois do sexo não significa que vais parar ao inferno se fumares o cigarro em vez de lavares os tomates; a ideia é que provavelmente é uma ideia higienicamente plausível lavares-te depois de suares como um suíno durante uma hora ou duas.

Deus é uma ofensa para a humanidade. Nem o podre do dióspiro e as suas pobres ideias em formato de blog (que credibilidade tem um blog, anyway?) é menos que Deus. Pecado é uma pobre desculpa para a existência do senhor num vestido preto ter dinheiro para comer. A verdade é que nem ele viu Deus uma mísera vez na sua vida, mas continua pobre de espírito a acreditar naquilo que lhe é conveniente. Se Deus existe, certamente não é a ofensivamente vil criatura que a maioria das religiões figuram. A homossexualidade é um pecado? O que é um pecado para começar? Ser anão é um pecado? Fazer amor com alguém por uma razão para além da procriação é criticável?

Aprendam o que é, realmente, amor, parem um pouco para viver e parem de fazer um felicíssimo chichi na cama porque um senhor moribundo, tão divino quanto uma formiga que vos está a fazer cócegas no umbigo, decidiu ir a África falar em nome de Deus em promoção da propagação do HIV.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Maldita Máquina do Tempo

Todos nascemos e morremos. Entre estes dois polos dolorosamente óbvios permanece uma história. Quando grandes homens como os irmãos Grimm ou Hans Christian Andersen proferiram as mais-que-épicas palavras “e viveram felizes para sempre”, encadeadas com cola de açucar e decoradas com coraçõezinhos,  esqueceram-se da nota de rodapé. Bazinga. A tortura mais brilhante da evolução do tio Cronos é o facto de ele nunca voltar a trás. Este capataz faz questão de nos ensinar mais que muito, quer queiramos, quer não, com a ligeira nuance de um asqueroso desfasamento temporal entre sabedoria e consequência. Graças a isto, a lotaria mantém-se a pérola dos porcos e a roleta russa o jogo mais engraçadinho de sempre.

Mas imagina que podias voltar atrás. Voltar atrás e dizer a ti mesmo/a “olha que a Susana tem herpes”, “dia 18 de Março de 2003 não vás para a escola sem tomar um Ultra-Levure” ou “se não tivesses desistido do liceu talvez não estivesses a limpar o sobejo ressequido do excremento público, sua fraca desculpa para um atraso mental com pernas”. Será que a tua vida seria diferente?

A vida serve para aprendermos com os nossos próprios erros. Mas não seria credibilidade bastante o tu do futuro comunicar “coço os meus genitais mais por dor que por gozo a cada cinco minutos, perdi o amor da minha vida desde que me descuidei em volumes audíveis em frente a uma audiência de trinta pessoas e só não me suicido com químicos de saneamento porque já lhes ganhei imunidade a limpar sanitas”?

Não haveriam crises económicas sem especulação, o próprio sistema económico capitalista seria impossível e relançando muito brevemente umas estatísticas de divórcios diria que neste mundo estilo Minority Report ninguém se chegaria a casar. Quem é que beneficiaria com um mundo assim? Deixando Santana Lopes no estatuto de menção honrosa a resposta é... ninguém. Acontece que o o efeito borboleta ganharia um complexo de dildo e se dedicaria uma diligente sodomização geral, o que não seria do apreço de ninguém que não os incontáveis shemales turcos.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O Caminho Para a Felicidade

Uma universidade privada na Turquia prova-se, passo a passo, como uma enriquecedora fonte sapiente da eclética mente que representa Eva no mundo. No caso da mítica, convidativa figura que levou – segundo reza – Adão ao pecado, a roupa não era uma opção. Diospiricamente falando, Adão nunca teve grande chance neste jogo mais hormonal que moral. Mas grandes homens, num extenso plural, vieram a sofrer o trauma da complexidade feminina. Não há relatos sobre se Eva ofereceu ou não grandes barreiras psicológicas à ordem natural da relação entre homem e crise existencial personificada.

A complicação inerente a uma mulher é intemporal, evolutiva como um vírus e geograficamente intransponível; por outras palavras, cada mulher aprende a ser complicada numa base cultural. Se alguma vez me queixei da versão portuguesa, entidade sobrenatural inexistente me perdoe: bem vindos à Yeditepe Üniversitesi.

Yeditepe é, como o prólogo sugeriu, uma universidade privada, por sinal esteticamente atraente e repleta de maquilhagem num continuum de L'Oreal a Tuli Creme. Cinquenta por cento dos carros estacionados no parque interior são BMW's, Mercedes ou Porches... brancos. Existe uma justificação plausível: acontece que a palavra Porche é uma espécie de abre-te sésamo para as raparigas de Yeditepe. Um “abre-te sésamo” no entanto muito relativo, quando graças a esta nulidade chamada religião a pureza de uma mulher é consequentemente julgada com base na preservação da sua cerejinha.

O que acontece então? Imaginemos que Mustafa quer enviar uma carta. Como é lógico ele dirige-se ao local naturalmente indicado para o efeito – o posto dos correios; no entanto ele é prontamente informado: “aqui não podes enviar uma carta”. Como Mustafa é bastante persistente, um armazém bastante distante, cujo propósito até à data se limitou à recepção de mercadorias alimentares, teve pena do jovem e decidiu aceitar a sua carta. Mas Mustafa continuou a enviar as suas cartas e este armazém ficava tãaaaao longe, e porque estava vocacionado para recepção de mercadorias as cartas de Mustafa acabavam nos sítios mais macabros. Mustafa insistiu com o posto dos correios, considerando um desperdício dos fundos do governo que esta estação não aceitasse as suas cartas, mas a resposta, essa, - imóvel. Eventualmente, uma fábrica de chocolate, desta vez mais próxima, ofereceu-se para receber as cartas: era uma estação velha, escura e claramente inexperiente. Esta estação disse para Mustafa: “até agora nunca recebi uma carta, eu normalmente envio e não recebo”. Mas a fábrica recebeu com sucesso a carta de Mustafa, apesar de estar inicialmente receosa quanto à ideia. E as de trinta e quatro outros meninos depois dele. No espaço de um mês.

Mas o importante é que o posto dos correios estruturado e construido com toda a tecnologia indicada para a admissão e acomodação de cartas, com um serviço de apoio ao cliente naturalmente fluente e o tipo de proletariado que morre de felicidade por amor ao seu trabalho... não receba uma carta.

Ámen! 

terça-feira, 29 de novembro de 2011

The Rabbit Shore

Um jovem, entre os vinte e os trinta e poucos anos, coloca desvirginantemente as mãos numa laca capilar e inocentemente prolifera-a pela peluda superfície das suas fontes. A sua face, esbatida pelo que se assemelha a pó talco, permanece apenas em relance perante uma vestimenta – uma mísera t-shirt – que pelo seu indigente tamanho traz uma nova noção de crise ao mundo capitalista. No entanto, não estamos, por enquanto, em Portugal. Tudo isto se passa numa terra longínqua, na costa este da terra do tio Sam: New-Jersey.

As pontas do cabelo, vítimas de um acidente com lixívia sobrenaturalmente selectivo, conferem a este jovem um toque artístico apto a fomentar espasmos espontâneos na, cada vez mais diminuta, parcela humana dotada de senso comum. Mas este chavalo é como o Seaman: terá alguns fãs, mas a grande maioria continuará a achar que há ali algo de profundamente errado. Os braços do típico indivíduo de Jersey Shore propõem duas conjecturas: um punheteiro compulsivo ou um adepto do sistema de treino da WWE (que nada tem a ver com umas pequenas pílulas brancas).

Ora, o facto de este indivíduo fisicamente ostensivo, incontornavelmente agressivo e mentalmente primitivo conseguir sucesso com elementos do sexo oposto tem uma explicação lógica. Um dia na sua adolescência, com QI de Pokémon, o nosso douchebag descobriu, ao longo de Twillight: New Moon, que as hormonas femininas direccionam atenção para oito abdominais definidos, em detrimento da acne facial.
Em simultâneo, uma jovem rapariga decidiu não ver a saga Twilight. Resultado? Aprendeu que aquilo que atrai o género masculino não passa por uma personalidade de Droopy Dog mas pela ufania de um opressivo par de mamas.

E assim, a fracção inferior da inteligência humana encontra contentamento sexual. A questão é – e desta vez poupam-se censuras – como que caralhos é que estes fudilhõezinhos ficaram famosos?




domingo, 13 de novembro de 2011

Fazê-lo no Elevador com Estranhos

Após a grande festa da passada semana, com direito a um fogo de artifício de tal calibre que faria Platão, Van Gogh e Ian Curtis espumar da boca, a saga continua. Há uns dias atrás brotou uma nova situação no alegríssimo contínuo diospirico de espaço-tempo: a mítica conversa de elevador. Um filtro social, um traço enfadonho do ser humano, psicanaliticamente designado por ego, é aquilo que nos torna – e com desprezo afirmo: pessoas normais. Pois acontece que o elevador não tem rigorosamente nada de peculiar e é na verdade o local propício para um estimulante diálogo; modestamente forçado, talvez.

Ora uma vez num elevador com um indivíduo idoso... Ou antes, de uns quarenta e poucos anos... Vá, não cheirava a bafio. Semi-apraltado com um fato cinza e uma gravata inventada pelas fadinhas, era seguro que este senhor não teria marcado presença na manifestação geração à rasca, em contraste com neo-nazis, empregados da Telepizza e o rafeiro alentejano do meu primo Jorge. Isto sabia-se porque o local da acção era não um elevador qualquer, mas o elevador de uma excelente clínica dentária. Excelente porque não fazem muito barulho com o WIIIIIIINNNNN (para os mais lentos em onomatopeias, refiro-me ao berbequim de meio metro com que um dentista viola bocas contra a lei da física).

Quando, para espanto mútuo, o elevador encerra toda a actividade à la CGTP, o meu novo companheiro de quarto olha compulsivamente de uma forma mentecapta. Um duo de segundos de pausa e exclamei:
- 'Ah! É uma pescadinha de rabo na boca!'
Contra a minha notável alacridade foi-me dado a entender que a resposta não era a correcta. Mas prossegui, entendendo que esta relação seria duradoura:
  • 'O que é que você acha quanto à homossexualidade?'
  • 'O quê?' - devolveu a pescadinha prontamente.
  • 'Sim. Eu cá sou bastante tolerante. E você, gosta deles?'
O senhor pareceu tão interessado no assunto que franziu as sobrancelhas para acicatar a concentração. Finalmente respondeu:
  • 'Suponho que não sou contra... Mas que raio de pergunta?'
  • 'Gosto da sua gravata'. Disse isto enquanto sincronizei um piscar de olho.
Mais uma vez a reacção foi positiva, já que ele espetou os olhos como um par de mamilos na Sibéria. Após a sua pausa, revigorei:
  • 'Imagine você que este elevador está prestes a cair. Vamos morrer – supondo, pois claro... Fazia-me um cafuné?'
A sua face expressou pouca convicção. Reafirmei:
  • 'Eu tenho uma luva'. A verdade é que tinha perdido a outra a fugir de uma velhinha que achou que o meu gorro cobria demasiado a minha cara para não pertencer a uma minoria social. 'Só com uma mão', insisti.
  • 'Suponho que sim', veio uma resposta pálida.
Imediatamente inquiri:
  • 'Onde?'
  • 'Onde tu quiseres!', exclamou o homem com excesso de entusiasmo.
E aí entendi porque é que as pessoas não conversam espontaneamente sobre estes temas no elevador e imediatamente me dei ao respeito:
  • 'Você é um grandessíssimo paneleiro.'




segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Uma Imbecil Persistência

Agora que este profaníssimo pedaço de imaturidade atingiu o seu trigésimo artigo, se é que alguém literado o poderá apelidar de tal, tenho apenas a anunciar que não há nada de imensamente patológico em prosseguir a leitura. Na realidade, a pouca aguardada subsistência das aspirações literárias de um fruto com bicho revela como é possível fazer-se tanto em nome de nada. É como juntar esforços para a sexagésima nona campanha para encontrar a Maddie: estão todos tão preocupados em gritar “arrebenta a bolha!” que ninguém se lembrou de procurar debaixo da terra num pinhal obscuro para chegarem a um fim produtivo (honestamente, a uma caixa de pinho e cerejeira bastante bonita, atendendo ao fundo McCann).

Mas se uma coisa este blog faz de bom é promover a leitura, mesmo que numa diagonal gravitacionalmente inclinada. Afinal, o ser humano aspira à burrice como a Amy Winehouse aspirava farinha, e esta piada nem tão pouco faz sentido. Esta inconclusiva sentença parte apenas da perfeita noção de que já ninguém pega num livro, algo que leva muita boa gente a levianamente sugerir a dúvida “português é uma língua?”, uma áspera falácia preliminar para um vil acto de violação na forma de “Portugal fica no sul do Reino Unido?”. “Portugal é um país?”, por fim, é a ausência de uma carícia após o acto, que levaria qualquer luso a sentir-se um afro-americano/asiático em mais um autodepreciativo filme de terror - Sexta-Feira 13.

O desconhecimento é um passo tremendo em direcção à arrogância: é o terror de quebrar o silêncio em nome da decadência intelectual. Ser-se inculto não é legalmente um crime, embora por vezes sugira uma competição apertada entre o macaco Gervásio e a sua equivocamente assumida evolução. Ser-se inculto é como ser um padre: ser-se fértil e adoptar uma vida de dedicação a um homem de barbas que nem tão pouco existe, envergando umas vestes inqualificáveis e irregularmente lavadas. Enfim; ser-se inculto é humano e será errado criticá-lo; mas não deixa de ser um fenomenal desperdício de uma mente saudável. Por outro lado, uma pessoa inculta mas com vontade de conhecer é um sapo à espera de um beijo, um mineiro aguardando a luz do sol, um elefante a tocar o sino por um amendoim. Uma pessoa inculta é como um orfão de um país desfavorecido nas mãos da Angelina Jolie. Ele tem potencial, vontade de largar o estridente rato de laboratório com sida “Ke$ha” e abraçar música, vontade de fechar os olhos e aceitar que a revista Cuore não tenha grande conteúdo para além da óbvia semelhança southparkiana entre a Sarah Jessica Parker e um cavalo.
Em suma: tens mais de 18 anos? És vacinado/a? Tens um avultado montante de pelos na púbis que sentes necessidade de cortar regularmente pela hipotética ideia de sexo que nunca chega a vias de facto? Então vai ver Midnight in Paris.