José da Silva olha fixamente para um prédio, mantendo um ar seriíssimo com o seu chapéu alentejano e um colete de guardador de rebanhos. A sua mão estende-se à solene réstia de companheirismo, uma pequena ovelha, que junta a uma quase intolerável solidão compõe a herança de um vírus falhado. José é uma lenda.
Em tempos feliz guardador de rebanhos em Amareleja, J.S. sofreu o impreterível destino de que o Mundo, no seu sentido mesmo lato1, lhe tomasse os seus bens mais preciosos do mundo – as suas outras duas ovelhas2 – bem como todo o resto da humanidade. E assim ele vive, caçando e coçando com a sua ovelhinha Maxi, todo o tipo de bicho que ousa partilhar o mundo com ele, ou neste particular momento, a Avenida da República em caminho ao Saldanha3. “A filha da Arlinda veio para a cidade para ser médica. Aqui vou curar o mundo”, dizia em toda a sua eloquência o senhor José da Silva.
Alegre de dia com a sua ovelha, passeando na Damaia ou nas embaixadas do Restelo, ou jogando golfe como um malandro em cima dos dois submarinos do senhor Paulo Portas (agora, em 2017), a felicidade punha-se com o sol. Quando o seu Casio apitava J.S. sabia que uma quantidade de zumbis vampiros mutantes ex-funcionários públicos infectados viriam “taxá-lo”. Estes senhores (e senhoras), um tanto ou pouco feios segundo os parâmetros da L'Oreal poderiam perfeitamente viver durante o dia, não fosse o facto de a luz do Sol se reflectir na sua pele, o que não os mata de forma alguma mas causa uma incadescência nervosa que se tornaria extremamente incómoda. Assim, ao cair da Noite, J.S. enfia-se numa banheira e reza umas tantas Avés Maria enquanto do lado de fora das paredes se ouvem cantos e danças tradicionais.
Entretanto afinal os pseudo-zombies a la Resident Evil são inteligentes e querem o senhor José para propósitos incertos mas assumidamente alimentícios. Mas este não se deixa apanhar, graças aos fiéis concelhos dos manequins de uma loja Zara, e chega mesmo a capturar um dos zumbis deixando um queijinho numa ratoeira e reproduzindo freneticamente “iiiiihhhhh, iiiiiihhhh!!” – o que se assume que não funcionaria, não fosse o senhor da Silva um mestre em barulhos irresistivelmente irritantes.
Prosseguindo, em tom menos relevante, matam-lhe a ovelha, o que leva a uma cena dramática de asfixia e um adeus necrófilo. Ele descobre também que afinal não está sozinho na sua essência humana, deparando-se com uma mulher e um menino pequeno (portugueses, e não americanos). A expectativa de um encontro emocional desfaz-se quando “o Zé” os confunde com alienisnas que querem roubar as suas ovelhas (que por acaso já estavam mortas) e mata os dois sobreviventes a sangue frio com uma p*** de uma inchada. Boa Zé.
E viveu sozinho para sempre
1 Incluímos os Estados Unidos nesta definição, mas a história não é passada nos grandes E.U.A. porque um sobrevivente de uma epidemia não é necessariamente americano só porque um filme é realizado em Hollywood, certo? Portanto sim, os seres humanos americanos, teoricamente e para qualquer relevância desta história, poderão muito bem ter morrido em plena completude. Falecidos. Ou então alterados por um vírus como irei revelar no próximo parágrafo, mas sem dúvida que o povo americano não toma nem relevância nem importância neste caso, porque afinal de contas não estamos a falar de guerra.
2O que totaliza três ovelhas no período pré-epidémico, o que na verdade dificilmente faz um pastor. Portanto consideremos antes que eram trinta e duas ovelhas, incluindo Leandra, a ovelha mais lenta com uma pequena deficiência motora e que apareceu uma vez grávida de uma forma surpreendente e miraculosa dado que todos os carneiros eram castrados
3Este pastor tornou-se particularmente moderno quando o mundo cedeu ao tal vírus, passando a dar-se ocasionalmente ao prazer de “roubar” uns enlatados do Dolce Vita Monumental, ou quando particularmente endiabrado, também do Atrium Saldanha.
