quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Bíblia Para Totós

Para muitos a religião é a criação de Deus, o dogmático profetismo que nos guia; para outros trata-se de um pequenino hipopótamo cor-de-rosa em narcóticos. Veramente, nem uma nem outra: a religião é bastante lógica. Assumir que Bíblia, Corão e amigos são um poço infindável de arco-íris literário é uma tentação de quase lascívia, mas inválida. Será também um tanto ou pouco estúpido considerar possível que tudo aquilo que a religião diz é uma paráfrase directa de um barbudo nas nuvens. Aquilo que todos terão que entender é que a religião é humana, e como qualquer coisa de humano trará consigo o bom, o mau, o feio e simplesmente estúpido.

Mas não julguemos sem consideração. O Corão, por exemplo, é altamente compatível com a ciência em muitos sentidos. A Bíblia é um bom conto de fadas escrito por sabe-se lá realmente quem, reescrita por mais gente que a população chinesa, deturpada por mais uma dúzia de macacos e representada por mais de três mil versões. Se Deus escreveu a Bíblia, das duas uma: ou metade da população terrena e respectivas mães receberam uma mensagem do senhor ou ele tomou a liberdade de possuir mais gente que Giancomo Casanova.

Ora, estas crenças incitadoras de muitas guerras, um pouco de compaixão e muitos donativos financeiros têm uma possível base virtuosa. Até a bíblia satânica inclui uns pedaços rechonchudos de sabedoria de vida que muitos psicólogos poderão certificar. Quando o Islão diz que tens que tomar um banho depois do sexo não significa que vais parar ao inferno se fumares o cigarro em vez de lavares os tomates; a ideia é que provavelmente é uma ideia higienicamente plausível lavares-te depois de suares como um suíno durante uma hora ou duas.

Deus é uma ofensa para a humanidade. Nem o podre do dióspiro e as suas pobres ideias em formato de blog (que credibilidade tem um blog, anyway?) é menos que Deus. Pecado é uma pobre desculpa para a existência do senhor num vestido preto ter dinheiro para comer. A verdade é que nem ele viu Deus uma mísera vez na sua vida, mas continua pobre de espírito a acreditar naquilo que lhe é conveniente. Se Deus existe, certamente não é a ofensivamente vil criatura que a maioria das religiões figuram. A homossexualidade é um pecado? O que é um pecado para começar? Ser anão é um pecado? Fazer amor com alguém por uma razão para além da procriação é criticável?

Aprendam o que é, realmente, amor, parem um pouco para viver e parem de fazer um felicíssimo chichi na cama porque um senhor moribundo, tão divino quanto uma formiga que vos está a fazer cócegas no umbigo, decidiu ir a África falar em nome de Deus em promoção da propagação do HIV.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Maldita Máquina do Tempo

Todos nascemos e morremos. Entre estes dois polos dolorosamente óbvios permanece uma história. Quando grandes homens como os irmãos Grimm ou Hans Christian Andersen proferiram as mais-que-épicas palavras “e viveram felizes para sempre”, encadeadas com cola de açucar e decoradas com coraçõezinhos,  esqueceram-se da nota de rodapé. Bazinga. A tortura mais brilhante da evolução do tio Cronos é o facto de ele nunca voltar a trás. Este capataz faz questão de nos ensinar mais que muito, quer queiramos, quer não, com a ligeira nuance de um asqueroso desfasamento temporal entre sabedoria e consequência. Graças a isto, a lotaria mantém-se a pérola dos porcos e a roleta russa o jogo mais engraçadinho de sempre.

Mas imagina que podias voltar atrás. Voltar atrás e dizer a ti mesmo/a “olha que a Susana tem herpes”, “dia 18 de Março de 2003 não vás para a escola sem tomar um Ultra-Levure” ou “se não tivesses desistido do liceu talvez não estivesses a limpar o sobejo ressequido do excremento público, sua fraca desculpa para um atraso mental com pernas”. Será que a tua vida seria diferente?

A vida serve para aprendermos com os nossos próprios erros. Mas não seria credibilidade bastante o tu do futuro comunicar “coço os meus genitais mais por dor que por gozo a cada cinco minutos, perdi o amor da minha vida desde que me descuidei em volumes audíveis em frente a uma audiência de trinta pessoas e só não me suicido com químicos de saneamento porque já lhes ganhei imunidade a limpar sanitas”?

Não haveriam crises económicas sem especulação, o próprio sistema económico capitalista seria impossível e relançando muito brevemente umas estatísticas de divórcios diria que neste mundo estilo Minority Report ninguém se chegaria a casar. Quem é que beneficiaria com um mundo assim? Deixando Santana Lopes no estatuto de menção honrosa a resposta é... ninguém. Acontece que o o efeito borboleta ganharia um complexo de dildo e se dedicaria uma diligente sodomização geral, o que não seria do apreço de ninguém que não os incontáveis shemales turcos.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O Caminho Para a Felicidade

Uma universidade privada na Turquia prova-se, passo a passo, como uma enriquecedora fonte sapiente da eclética mente que representa Eva no mundo. No caso da mítica, convidativa figura que levou – segundo reza – Adão ao pecado, a roupa não era uma opção. Diospiricamente falando, Adão nunca teve grande chance neste jogo mais hormonal que moral. Mas grandes homens, num extenso plural, vieram a sofrer o trauma da complexidade feminina. Não há relatos sobre se Eva ofereceu ou não grandes barreiras psicológicas à ordem natural da relação entre homem e crise existencial personificada.

A complicação inerente a uma mulher é intemporal, evolutiva como um vírus e geograficamente intransponível; por outras palavras, cada mulher aprende a ser complicada numa base cultural. Se alguma vez me queixei da versão portuguesa, entidade sobrenatural inexistente me perdoe: bem vindos à Yeditepe Üniversitesi.

Yeditepe é, como o prólogo sugeriu, uma universidade privada, por sinal esteticamente atraente e repleta de maquilhagem num continuum de L'Oreal a Tuli Creme. Cinquenta por cento dos carros estacionados no parque interior são BMW's, Mercedes ou Porches... brancos. Existe uma justificação plausível: acontece que a palavra Porche é uma espécie de abre-te sésamo para as raparigas de Yeditepe. Um “abre-te sésamo” no entanto muito relativo, quando graças a esta nulidade chamada religião a pureza de uma mulher é consequentemente julgada com base na preservação da sua cerejinha.

O que acontece então? Imaginemos que Mustafa quer enviar uma carta. Como é lógico ele dirige-se ao local naturalmente indicado para o efeito – o posto dos correios; no entanto ele é prontamente informado: “aqui não podes enviar uma carta”. Como Mustafa é bastante persistente, um armazém bastante distante, cujo propósito até à data se limitou à recepção de mercadorias alimentares, teve pena do jovem e decidiu aceitar a sua carta. Mas Mustafa continuou a enviar as suas cartas e este armazém ficava tãaaaao longe, e porque estava vocacionado para recepção de mercadorias as cartas de Mustafa acabavam nos sítios mais macabros. Mustafa insistiu com o posto dos correios, considerando um desperdício dos fundos do governo que esta estação não aceitasse as suas cartas, mas a resposta, essa, - imóvel. Eventualmente, uma fábrica de chocolate, desta vez mais próxima, ofereceu-se para receber as cartas: era uma estação velha, escura e claramente inexperiente. Esta estação disse para Mustafa: “até agora nunca recebi uma carta, eu normalmente envio e não recebo”. Mas a fábrica recebeu com sucesso a carta de Mustafa, apesar de estar inicialmente receosa quanto à ideia. E as de trinta e quatro outros meninos depois dele. No espaço de um mês.

Mas o importante é que o posto dos correios estruturado e construido com toda a tecnologia indicada para a admissão e acomodação de cartas, com um serviço de apoio ao cliente naturalmente fluente e o tipo de proletariado que morre de felicidade por amor ao seu trabalho... não receba uma carta.

Ámen! 

terça-feira, 29 de novembro de 2011

The Rabbit Shore

Um jovem, entre os vinte e os trinta e poucos anos, coloca desvirginantemente as mãos numa laca capilar e inocentemente prolifera-a pela peluda superfície das suas fontes. A sua face, esbatida pelo que se assemelha a pó talco, permanece apenas em relance perante uma vestimenta – uma mísera t-shirt – que pelo seu indigente tamanho traz uma nova noção de crise ao mundo capitalista. No entanto, não estamos, por enquanto, em Portugal. Tudo isto se passa numa terra longínqua, na costa este da terra do tio Sam: New-Jersey.

As pontas do cabelo, vítimas de um acidente com lixívia sobrenaturalmente selectivo, conferem a este jovem um toque artístico apto a fomentar espasmos espontâneos na, cada vez mais diminuta, parcela humana dotada de senso comum. Mas este chavalo é como o Seaman: terá alguns fãs, mas a grande maioria continuará a achar que há ali algo de profundamente errado. Os braços do típico indivíduo de Jersey Shore propõem duas conjecturas: um punheteiro compulsivo ou um adepto do sistema de treino da WWE (que nada tem a ver com umas pequenas pílulas brancas).

Ora, o facto de este indivíduo fisicamente ostensivo, incontornavelmente agressivo e mentalmente primitivo conseguir sucesso com elementos do sexo oposto tem uma explicação lógica. Um dia na sua adolescência, com QI de Pokémon, o nosso douchebag descobriu, ao longo de Twillight: New Moon, que as hormonas femininas direccionam atenção para oito abdominais definidos, em detrimento da acne facial.
Em simultâneo, uma jovem rapariga decidiu não ver a saga Twilight. Resultado? Aprendeu que aquilo que atrai o género masculino não passa por uma personalidade de Droopy Dog mas pela ufania de um opressivo par de mamas.

E assim, a fracção inferior da inteligência humana encontra contentamento sexual. A questão é – e desta vez poupam-se censuras – como que caralhos é que estes fudilhõezinhos ficaram famosos?




domingo, 13 de novembro de 2011

Fazê-lo no Elevador com Estranhos

Após a grande festa da passada semana, com direito a um fogo de artifício de tal calibre que faria Platão, Van Gogh e Ian Curtis espumar da boca, a saga continua. Há uns dias atrás brotou uma nova situação no alegríssimo contínuo diospirico de espaço-tempo: a mítica conversa de elevador. Um filtro social, um traço enfadonho do ser humano, psicanaliticamente designado por ego, é aquilo que nos torna – e com desprezo afirmo: pessoas normais. Pois acontece que o elevador não tem rigorosamente nada de peculiar e é na verdade o local propício para um estimulante diálogo; modestamente forçado, talvez.

Ora uma vez num elevador com um indivíduo idoso... Ou antes, de uns quarenta e poucos anos... Vá, não cheirava a bafio. Semi-apraltado com um fato cinza e uma gravata inventada pelas fadinhas, era seguro que este senhor não teria marcado presença na manifestação geração à rasca, em contraste com neo-nazis, empregados da Telepizza e o rafeiro alentejano do meu primo Jorge. Isto sabia-se porque o local da acção era não um elevador qualquer, mas o elevador de uma excelente clínica dentária. Excelente porque não fazem muito barulho com o WIIIIIIINNNNN (para os mais lentos em onomatopeias, refiro-me ao berbequim de meio metro com que um dentista viola bocas contra a lei da física).

Quando, para espanto mútuo, o elevador encerra toda a actividade à la CGTP, o meu novo companheiro de quarto olha compulsivamente de uma forma mentecapta. Um duo de segundos de pausa e exclamei:
- 'Ah! É uma pescadinha de rabo na boca!'
Contra a minha notável alacridade foi-me dado a entender que a resposta não era a correcta. Mas prossegui, entendendo que esta relação seria duradoura:
  • 'O que é que você acha quanto à homossexualidade?'
  • 'O quê?' - devolveu a pescadinha prontamente.
  • 'Sim. Eu cá sou bastante tolerante. E você, gosta deles?'
O senhor pareceu tão interessado no assunto que franziu as sobrancelhas para acicatar a concentração. Finalmente respondeu:
  • 'Suponho que não sou contra... Mas que raio de pergunta?'
  • 'Gosto da sua gravata'. Disse isto enquanto sincronizei um piscar de olho.
Mais uma vez a reacção foi positiva, já que ele espetou os olhos como um par de mamilos na Sibéria. Após a sua pausa, revigorei:
  • 'Imagine você que este elevador está prestes a cair. Vamos morrer – supondo, pois claro... Fazia-me um cafuné?'
A sua face expressou pouca convicção. Reafirmei:
  • 'Eu tenho uma luva'. A verdade é que tinha perdido a outra a fugir de uma velhinha que achou que o meu gorro cobria demasiado a minha cara para não pertencer a uma minoria social. 'Só com uma mão', insisti.
  • 'Suponho que sim', veio uma resposta pálida.
Imediatamente inquiri:
  • 'Onde?'
  • 'Onde tu quiseres!', exclamou o homem com excesso de entusiasmo.
E aí entendi porque é que as pessoas não conversam espontaneamente sobre estes temas no elevador e imediatamente me dei ao respeito:
  • 'Você é um grandessíssimo paneleiro.'




segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Uma Imbecil Persistência

Agora que este profaníssimo pedaço de imaturidade atingiu o seu trigésimo artigo, se é que alguém literado o poderá apelidar de tal, tenho apenas a anunciar que não há nada de imensamente patológico em prosseguir a leitura. Na realidade, a pouca aguardada subsistência das aspirações literárias de um fruto com bicho revela como é possível fazer-se tanto em nome de nada. É como juntar esforços para a sexagésima nona campanha para encontrar a Maddie: estão todos tão preocupados em gritar “arrebenta a bolha!” que ninguém se lembrou de procurar debaixo da terra num pinhal obscuro para chegarem a um fim produtivo (honestamente, a uma caixa de pinho e cerejeira bastante bonita, atendendo ao fundo McCann).

Mas se uma coisa este blog faz de bom é promover a leitura, mesmo que numa diagonal gravitacionalmente inclinada. Afinal, o ser humano aspira à burrice como a Amy Winehouse aspirava farinha, e esta piada nem tão pouco faz sentido. Esta inconclusiva sentença parte apenas da perfeita noção de que já ninguém pega num livro, algo que leva muita boa gente a levianamente sugerir a dúvida “português é uma língua?”, uma áspera falácia preliminar para um vil acto de violação na forma de “Portugal fica no sul do Reino Unido?”. “Portugal é um país?”, por fim, é a ausência de uma carícia após o acto, que levaria qualquer luso a sentir-se um afro-americano/asiático em mais um autodepreciativo filme de terror - Sexta-Feira 13.

O desconhecimento é um passo tremendo em direcção à arrogância: é o terror de quebrar o silêncio em nome da decadência intelectual. Ser-se inculto não é legalmente um crime, embora por vezes sugira uma competição apertada entre o macaco Gervásio e a sua equivocamente assumida evolução. Ser-se inculto é como ser um padre: ser-se fértil e adoptar uma vida de dedicação a um homem de barbas que nem tão pouco existe, envergando umas vestes inqualificáveis e irregularmente lavadas. Enfim; ser-se inculto é humano e será errado criticá-lo; mas não deixa de ser um fenomenal desperdício de uma mente saudável. Por outro lado, uma pessoa inculta mas com vontade de conhecer é um sapo à espera de um beijo, um mineiro aguardando a luz do sol, um elefante a tocar o sino por um amendoim. Uma pessoa inculta é como um orfão de um país desfavorecido nas mãos da Angelina Jolie. Ele tem potencial, vontade de largar o estridente rato de laboratório com sida “Ke$ha” e abraçar música, vontade de fechar os olhos e aceitar que a revista Cuore não tenha grande conteúdo para além da óbvia semelhança southparkiana entre a Sarah Jessica Parker e um cavalo.
Em suma: tens mais de 18 anos? És vacinado/a? Tens um avultado montante de pelos na púbis que sentes necessidade de cortar regularmente pela hipotética ideia de sexo que nunca chega a vias de facto? Então vai ver Midnight in Paris.

sábado, 29 de outubro de 2011

Existencialismo Patológico

Há crónicas que interessam a algumas pessoas. Há histórias que interessam a muita gente. E há relatos que não interessam a ninguém que considere que dar toques de cabeça com um rolo de papel higiénico não é um hobbie. Aquilo que trago hoje é claramente a terceira. Não me levem a mal, mas dado que se trata da minha frutada vida e que, deveras, há fruta mais colorida que eu, há um limite cônscio do quão interessante ela pode ser.

Há uns dias surgiu a questão: “estás vivo?”. Ora quanto a isto tenho a dissertar o seguinte sermão: (e confiem quando digo que este é o termo aplicável): como c*******s é possível alguém morto dizer que está vivo? Ou seja, se quiseres confirmação de que determinado ser ainda respira aquele tal misto de oxigénio, hidrogénio e sessenta e nove gazes de autocarros a que chamas de “ar” podes sugerir uma questão de maior conteúdo. Por exemplo: “comeste batatas hoje?”. Se a resposta for sim, não só saberás que sim, estou vivo, como sabes também que 1. existem batatas na turquia; 2. os dióspiros comem batatas; 3. sim, estou vivo. Por outro lado, se a resposta for não, a tua mente será enriquecida com o ponto número três e um novo ponto que em muito mau tom te relembra o ditado “o conhecimento não ocupa lugar”.

Por outro lado - e por favor acompanhem-me com atenção – como pode alguém confirmar a sua própria vida? A vida e a morte são incompatíveis, pelo que não podem coexistir. A vida é a não-morte, a morte é a não-vida. De seguida põe-se a premissa de que alguém só poderá saber se está vivo quando morrer. Mas quando morrer, como poderei dizer que morri porque sei agora que estava vivo mas já não estou?

Alguém diz “ah, mas se respiras, se te mexes, etcetera é porque estás vivo”. Isto é obviamente uma asserção de cromagnon. Quantas vezes eu vi alguém muito cansado que disse “ah, estou morto”, ou que ouvi o meu amigo Henrique a relatar a sua própria morte cem vezes em vinte minutos enquanto jogava Counter Strike. E estes indivíduos continuam a mexer-se, pelo que assumo que muito provavelmente são hindus.

Finalmente, o facto de não estar morto de momento não significa que não o esteja num futuro próximo. Eu posso ser japonês e não fazer sol hoje – matematicamente os japoneses já cometeram suicídio por razões menores. Por outro lado posso estar com uma enxaqueca dióspirica, que é por sinal quase tão intolerável quanto a noção de código deontológico da Manuela Moura Guedes. Isso levar-me-ia a considerar que a eutanásia é realmente uma hipótese também legítima fora dos lares de terceira idade.

A moral da história é no entanto profunda. A vida é algo de relativo, belo, mas momentâneo. Estar vivo só por si não significa nada. Pessoas cujo físico não passa de um cadáver muito para além do limiar de putrefação, coberto de bichinhos não-tão-sexys e indiscutivelmente asquerosos, lembram-nos do que é estarmos vivos passadas centenas de anos.

E depois há pessoas vivas que fazem isto:

O que é que se passou aqui?

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Donuts Em Marmitas No Médio Oriente


Of course you do. O nobre governo americano, na sua cíclica rotina de vício bélico, encontra-se por vezes na posição de um consumidor assíduo de crack ao nascer do sol. Procura então humanos crédulos, de uma cultura moldada em volta de uma errada noção de tarde-de-maçã, um auto-estima condicionada por três anos de liceu e um desconhecimento inspirador da existência de um planeta terra para além de trezentos anos atrás. O tio Sam aponta e lá vai o pobre senhor convencido de que existe uma linguagem chamada “americano”.

Porém, a razão pela qual escolhi relatar a muito bem oleada máquina ignobilmente designada por América passa por prestar a devida homenagem a este país. Dei conta que muito provavelmente não existe noutro local do mundo com um carácter tão rico em despropósito. O republicano norte-americano é um animal à parte, um fetichista de carabinas abençoado com o dom de falar a linguagem das galinhas, um ódio sexualmente inseguro por gays e uma fé num deus trazido pelos mesmíssimos indivíduos que lhes trouxeram... essencialmente tudo. E essa é a questão de maior interesse. No barco chamado May Flower do qual este povo tão redundante se orgulha vinham nada mais, nada menos que presidiários, violadores, ladrões e a penta-avó de Paris Hilton.

A valorização ética das diferenças culturais é outro brilhante traço desta gente. O mexicano não trabalha – come tacos, o preto rouba para comprar sumo de uva e galinha grita, o nativo americano limita-se a fumar droga o dia inteiro. A primeira questão é que os estereótipos são de muito mau tom, e por isso mesmo me redimo – se alguma vez propus que todos os americanos fossem perfeitos atrasados mentais, peço desculpa: só “mais de 50%” apresentam garantia de um défice mental ao votarem pela segunda vez em Bush. A segunda questão passa pelo termo aplicado a estas diferentes culturas – minorias – que se apresentam agora como uma maioria colectiva perfeitamente capaz de sustentar a insustentável política económica apelidada de capitalismo.

A maior indústria norte-americana – a indústria das pistolinhas e bazookas – satisfaz a sua foméca por via de uma dedução lógica acessível até ao macaco Jervásio:
Imagem de explosão. Foto de um senhor muçulmano num mau dia. “Joãozinho, quem é manda aviões contra os prédios??”
E vão jovens em massa, iludidos de que passou na MTV nos últimos dez anos se pode chamar música. Pequenos mártires que igualam patriotismo a sexo.

O dióspiro contenta-se com o segundo e dispensa o primeiro. Para quê um sonho americano quando se pode sonhar com o mundo?

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A Guerra dos Sexos - Parte 2


Depois de uma listagem de pequenas réstias de putrefacção mental por parte da menos exemplar parcela dos descendentes de Adão é hora de oferecer o palco à víbora que o leva à epítome da escrotidão verbal. Não se trata de dar resposta à infrutífera e nietzschiana questão do género mais forte. Não se trata de elogiar o tremendo dote feminino em lavar a loiça face a uma incapacidade masculina de pseudo-amputado em varrer o chão; certamente nem valeria a pena referir o ponto-morto na visão de um homem no que toca ao rolo da papel higiénico terminado.

Nada disso. Falemos antes sobre aquilo que o esbelto ser curvado pode dizer que realmente fere o ego de um homem. Desde “o meu ex é campeão de atletismo” e “achavas que eu era virgem? Nem me lembro quantos foram antes de ti”.

Ponhamos então em vista o seguinte cenário: o João, um jovem rapaz, visita a casa do seu date para, num tom clássico e romântico, iniciar o subtil processo de introdução ao coito. No seu Peugeot 306 pago pelo papá e pela mamã o João reflecte por uns segundos sobre o quão conveniente seria ter perguntado ao hipertrófico pai da … Lola, a que horas fariam questão que ele a trouxesse na manhã seguinte. E lá vai o João, com o seu perfume Armani e uma arrogante quantidade de preservativos na carteira, gastar um quarto da sua mesada para jantar. Mas justifica-se. A Lola é uma rapariga tão interessante e com tanto para dizer que o João quase poderia esquecer a imensidão dos seus seios.

Depois de um jantar memorável o João propõe, de coração em mão, “vamos ver o Notebook para minha casa”. Por insuspeita coincidência os pais do João não estavam em casa nessa noite, pelo que no melhor dos contextos as roupas começaram a saltar ritmicamente. Peça por peça, o João vai pensando em como o seu objecto de desejo é provavelmente a donzela mais inexperiente do bairro. A Lola, no entanto, e uma vez tapada a carpete com roupa, toma um momento de reflexão: “o meu irmão de 10 anos tem um assim”.
O João estranha o misto de desorientação e riso por parte da sua parceira, mas antes que possa inquirir, esta interpela:
·         “Estás com frio?”
·         “Hm... Não”, responde o João com hesitação.
·         “Ahh, tens os dedos dos pés tão grandes!”
·         “Ah?”
·         “Fizeste alguma coisa e Deus quer castigar-te?”
·         “Não? Porquê?”
·         “Nada. De qualquer forma eu sempre gostei de brincar à caça ao tesouro quando era pequena”.
Já assustado, o João responde: “de que é que estás a falar??”
·         “Nada, nada. Tive uma espécie de dor de cabeça instantânea. Porque é que não ficamos um bocadinho juntos e dormimos?”
Já frustrado, o João pergunta: “Mas o que é que se passa? Isto estava a correr tão bem...”
·         “É só que claramente trouxeste incenso e acontece que eu sou alérgica.”

terça-feira, 4 de outubro de 2011

A Guerra dos Sexos - Parte 1


A relação entre homem e mulher é um processo dotado de uma complexidadezinha própria que evolve muito desde o primeiro contacto até ao seu fim (este fim, este propósito, tende por ventura a variar entre os dois elementos).

A parte mais curiosa é habitualmente a primeira abordagem. Ela é fulcral. Esta é uma oportunidade única e efémera para que um homem quebre a expectativa da sua presa: a expectativa de uma moça de que ele é, provavelmente, um violador casual ou mesmo frequente, com fetiches irreliegiosos, um sentido de humor digno de cadáver putrefacto e um salário abaixo dos quatro dígitos numa qualquer rolote de churros na Damaia. Por isto mesmo surgem ideias platónicas e eminentemente ridículas que geram o lendário conceito de engate. Sem mais demora e com os respectivos termos técnicos:

1. Humor para pacientes de Ahlzeimer.
Quando a originalidade falta a eterna opção será recorrer ao “batido”. Por maleita, deficiência ou infelicidade, frases como as seguintes funcionam quando repetidas pela décima vez: “Oops. Perdi o meu número de telefone. Dás-me o teu?”, “Onde é que estiveste toda a minha vida?” e “estás cansada? Tens andado na minha mente o dia todo”

2. A mulher com teias de aranha lá em baixo.
Auto-estima é um traço pouco abundante no género em maioria no mundo. Haverá melhor argumento? “Não és a mulher mais bonita por aqui, mas a beleza está à distância de um interruptor” ou “tens consciência de que fui o único que te convidou para dançar a noite inteira?”

3. Tenho um ego espanhol.
A confiança é um traço do agrado das mulheres. A arrogância, por outro lado, cai muito bem junto do sector da debilidade mental feminina. E daí? É um nicho de mercado. Mostra o quanto gostas de ti com frases como “Já viste a tua sorte? De todas as mulheres escolhi vir falar contigo” e “És lésbica? Não? O meu apartamento é alí”

4. Estou sem dinheiro para ir de Metro até ao Intendente.
Falta de tempo e dinheiro? Elementos do sexo oposto com apetência para elevados graus de alcoolemia? Experimenta deixas como “isso é um espelho nas tuas calças? É que consigo ver-me aí dentro” ou “gostava que fosses um cavalinho de carrossel para te poder montar por 50 cêntimos” ou

5. Gosto mais de tremoços e cerveja do que devia.
Ser mau, feio e porco não é crime. Todo o homem tem o seu romantismo próprio que visa um feliz nheques à reprodução humana. E daí surgem pedaços de bom-bom como os seguintes: “Contigo era até encontrar petróleo” e podes ajudar-me a encontrar o meu cão? Ele fugiu para aquela pensão de duas estrelas”

Para tornar as coisas dióspiricamente justas, na próxima edição que ninguém vai ler o género mais belo terá a sua chance de vingança. Até lá!