segunda-feira, 16 de maio de 2011

O Fim da Linha

AVISO: Se achas acidentes de atropelamento um assunto sensível, este texto não é para ti.

                Atropelamento por um comboio: o fenómeno de um indivíduo passar pela experiência de ser violentamente trilhado por uma bisarma mecânica. Eis uma forma digna de se dar início a algo de novo: começar pelo fim! Literalmente. Pessoalmente acho isto pomposo, afinal de contas a morte sempre foi uma questão bastante emblemática, ou mesmo carismática (sim, ciganos, falo convosco).


                E daí, adianto-me. Quem postulou esta causa-efeito de que o esborrachar, para aplicar um termo maciozinho, dos ossos e vísceras de um ser humano levam inequivocamente a uma viagem ao purgatório? Eu, claro. Mas não querendo ser redundante, eu sou parvo. Este bê-á-bá cortês de um comboio de muitas toneladas e muitos metros – vá, grandinho – passar por cima de um senhor ou senhora (ou menino ou menina, sejamos razoáveis) pode não ser mais que um deparo bastante incómodo, mas não tão fatalista assim. Por obra e alma, não do destino nem do espírito santo, que não há cá dessas mariquices, mas sim da pulcra natureza humana de sobreviver e lutar pela vida, sucede o evento de um homem se sentir metade da pessoa que era, mas ainda assim vivaço; e com razão, diga-se.


                O mais estranho, porém, é quem o faz de uma macabra vontade própria. Ora, sejamos lógicos por um instante: a minha vida tomou um gosto áspero – assim, tipo, dióspiro: a minha pensão diminuiu, o intrujão e trafulha senhor Sócrates corre certos riscos de vir a ser reeleito quando eu fazia tenções de apoiar o recém-formado PAN (Partido dos Animais) para beneficiar de descontos nos impostos em função dos meus únicos amigos no mundo, os meus quatro cães, que padeceram em simultâneo a terça-feira passada. Tudo isto é suportável. Afinal, "tudo vale a pena quando a alma não é pequena", mas eis que… aumentaram o preço do meu passe? P’o c******.


                Sejamos justos. Existe uma réstia de coerência nesta última premissa. Afinal, quem persiste em falecer, para usar um palavreado muito pouco adequado, talvez não se importe assim tanto de se tornar Chocapic®. Aquilo que mexe realmente comigo, que ceifa um pouco de mim, é quem morre sem querer. “Oops, aconteceu”. Desculpem, piada parva e de mau gosto. A citação legítima será “olha um veículo grande e comprido que faz questão de emanar um aviso audível e até ensurdecedor para sinalizar a sua presença caso eu tenha falhado miseravelmente em notar que estou a caminhar por cima de carris, na linha do… ajudem-me… comboio”. Pronto, já saiu; e como tal, privo-me de atirar para o ar uma piada sobre a Helen Keller. Por favor não insistas.


                Tudo isto apenas para concluir com uma sugestão: olha para a esquerda e para a direita. É uma ideia proveitosa em todo o caso menos aquele em que queres, digamos, morrer. Aí talvez seja melhor não olhares, digo eu. Mas quem sou eu para dar concelhos? Aproveitaria este momento para pedir um minuto de silêncio pelos menos afortunados, no entanto acontece que vivo muito perto da linha do comboio e parece-me contra-produtivo pedir-lhes que façam pouco barulho.
               

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