quinta-feira, 30 de junho de 2011

A Comichão Aperta de Novo



         Um dióspiro caminha, em toda a sua plenitude motora, ao longo de um vasto e verdejante planalto. Vagueando, depara-se com um hipopótamo cor-de-rosa com um pequeno corno na sua testa. 

                Prontamente o dióspiro inquire: 
- Quem és tu, bichinho rosado?
O grande hipopótamo responde:
- Sou um unicórnio, dióspiro.
- Como sabes tu o meu nome?! – surpreende-se o fruto parvo.
- Pois… Sabes que tu n…
Interrompendo o pobre animal, o dióspiro coloca uma nova questão:
- Unicórnio?  Mas tu és um hipopótamo. Um hipopótamo panisgas, já agora. Com um falo na testa.
Irritado, o hipopótamo retorque:
- Que imaturo…

Puff. O dióspiro acorda, abandonando algo que nunca fora mais que um sonho, desperto pela mística vivência de uma bichinha unicórnia proferir o seu nome completo. Ele encontra-se agora no escritório – a deusa omnipotente e pouco pudica a quem chamam internet sumiu outra vez.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

A Comichão Aperta

          A web é uma dádiva radiante, tão omnipresente quanto o Deus cristão. Para a geração de 90 e póstumos a vida antes da internet era um mito, de tal forma que o big bang e a internet se encontram par-a-par no que pretém à génese do universo. O tempo lúdico dedicado ao iô-iô é agora despendido em jogos online. A serenata à janela dos tempos medievais traduz-se actualmente em sites como e-harmony.com. 

Esta cortesia americana oferece um facilitismo abismal ao dia rotineiro na cidade, graças ao fenómeno da globalização. Pizza? Net. Notícias? Net. Orgia interracial envolvendo a tua vizinha, tailandesas transsexuais e ovelhas amputadas em comboio? Net. Flores? Bairro Alto, mas só porque um asiático foi um dia ao Google Maps e descobriu que Portugal não fica realmente em Espanha (esse dia, adianto, é agora um feriado nacional no Paquistão).

Pessoalmente, equiparo a internet a coçar os tomates – é o que acontece quando estou no emprego e a frase do dia é “server not found”. Isto é engraçadinho e estúpido. Por um lado, sinto um maior contacto mariquinhas com a natureza e com o mundo porque se acabou o e-mail, o Facebook, o Google e todos os gatinhos malabaristas, sádicos e aparvalhados que daí advêm. No entretanto, seis pessoas num cubículo de escritório realizam uma tertúlia, ponderando se o coçamento ritual generalizado – e personalizado, esclareço – trarão a internet de volta.

          A coisa fantástica acontece quando o indivíduo enfadado inicia um processo de teorização sobre qual a coisa estapafúrdia que lhe aufere o seu objecto de desejo: será que abrir o Firefox dez vezes consecutivas irá miraculosamente trazer a internet de volta? Será que foi a senhora do café de baixo que cortou a internet porque na última sexta-feira não comi o habitual croissant? Ou terá Deus ficado chateado comigo por… bem, não exageremos.

        A moral situa-se num claro problema em lidar com a realidade quando, imaginando a vida há trezentos anos no passado, o dióspiro pondera se, não havendo iluminação eléctrica, os aristocratas iluminavam os seu portáteis com velas. E daí, o dióspiro é burro e precisa de internet para existir, tal como o senhor presidente da república que toma o privilégio de se dirigir ao público no seu website.


quarta-feira, 22 de junho de 2011

Dióspirofobia

O amigo José é um jovem senhor, adepto da vista noturna do Cais do Sodré, com a peculiaridade de ver no ser humano aquilo que via Thomas Hobbes – inata perversão. Tão travessa é a natureza humana que, parafraseando lealmente o senhor José, o homem é fonte de toda a maleita. Quando afirmei que “os pombos têm doenças”, prontamente fui retorquido com “os pombos não têm doenças - eles não têm doutores; não será o homem que lhes passa doenças?”. Essa é uma questão nunca antes colocada e lamento apenas não conseguir expressar o desarme suscitado pelo argumento em causa. 

O erudito senhor José nutre incessantemente o frágil senso comum humano com nobres eurekas, tais:
- “Acho parvo uma rapariga pintar-se e peidar-se sozinha.”
- “Dar um passo em areia movediça… não.”
- “Nós não ficamos doentes, os medicamentos é que têm efeitos secundários. Por isso eu não os tomo.”

Este guru sagaz observa-se vivo e a cores, ao contrário de um seu homónimo, personagem cinematográfico figurado n’A Paixão de Cristo. José nada teme. Nem doença, nem gases gástrico-intestinais; ele enfrenta os trilhos da vida, almejando o caminho do Bodhisattva. O destemido senhor disserta sobre as maldades do homem, relatando que nem uma delas lhe toca.

É, no entanto, humano ter-se medo. O temor de algo é da natureza humana como a fuga ao sol é patente num vampiro (ou era… Stephanie Buffy Meyer). Muitas colegiais hesitam em olhar para o lado oposto da cama a cada manhã; as crianças têm medo de crescer e os padres católicos têm medo que elas cresçam; um pequeno menino asiático teme ser esboroado pelos pais cada vez que falha uma tecla no piano. C’est la vie, o medo é mais omnipresente que Deus. Para terem uma boa noção: rectofobia (medo de doenças rectais), consecotaliofobia (façam um esforçozinho e… medo de pauzinhos chineses), genofobia (medo de joelhos; joelhos, porra). Claro está, alguns entre nós ficam-se pela cultura pop das fobias e dedicam-se a medos como ratos; coisa fraca.

Dióspiro? Tem apenas medo de amadurecer, de ficar mole, doce e fácil de ingerir. Seria coisa de choninhas.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Proliferação Nipónica


“Vou apanhá-los todos!” – cantávamos nós, em tempos distantes em que a música passada pela MTV ainda não pegava sida. Ora, Pokemon, ou nomeando o termo extenso, monstros de bolso, eram os bichinhos sexuados, alusivos a animais, com super-poderes mágicos e um vocabulário limitado a uma pleonástica perpetuação do seu próprio nome. Até aqui, nada de mais; a ideia não é inteiramente estapafúrdia tendo em conta uma génese na terra da sexualização das lolis, mãe do hentai  e do cosplay. Mas, como o saberá o leitor pobre de espírito que acompanha a infantil existência deste blog, as sequelas têm salmonella

                O dióspiro orgulha-se de uma coisa, e digo-vos, uma coisa apenas – de um dia ter sido o primeiro da sua escola a obter os 150 pokemons no mítico gameboy grande e cinzento. Cento e cinquenta; parece muito? Na altura parecia. Pois agora são seiscentos e quarenta e nove. Em paciência budista, reflecti profundamente a respeito de hipotéticas legitimações para uma tão eclética selecção de novos monstrinhos. Partindo para a análise, o que encontrei foi isto:

Gothorita, um pokemon gótico, de tipo psíquico. A profundidade transcende-me.

O pior revela-se, porém, quando tomamos uma análise funcional de cada bicho. Alguns dos pokemons originais apelavam, em acaso, ao ser humano comum: o bulbasaur produzia erva, o squirtle humedecia suave e delicadamente a mortalha, enquanto o charmander tomava o privilégio de acendê-la. Actualmente, os pequenos trastes incorporam auto-críticas à série: existe literalmente um pokemon composto de lixo (sim, lixo!), inspiradamente intitulado de trubish, evoluindo para garbodor. E acham que contempla reciclagem? No way.

                Em suma, os bichos abichanados – passo a redundância – são uma asquerosa influência para as novas gerações. Animais que saem de bolas para se agredirem inconsequentemente com murros, cabeçadas, relâmpagos, labaredas, cuspo e outros fenómenos projectados a partir de todo o tipo de partes corporais. A PEHTA deve adorar isso, tal como a errática miscelânia de conjugações que dão origem a novos pokemons. Ao início, todos os pokemons tinham relações sexuais penetrando um bocado de borracha chamado Ditto. Agora? As possibilidades são infinitas; repugnantemente infinitas…

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Coração de Dióspiro


O amor. Lá está um tema do qual nem eu, nem tu queremos falar, acabando inevitavelmente por fazê-lo. Para quando, como, com quem? Nunca saberás. Com azar, não sabes, tão pouco, como se dissipou aquilo que tinhas em comum com o padre António, com o senhor gordo e feio que vive no teu prédio e aquela senhora dos contos de fadas que ficou prenha de Jesus.  Mesquinhas, as voltas que a vida dá, entre virtudes perdidas em lavabos públicos (no caso de quem vota Bloco de Esquerda) e hímens esquecidos em aulas de equitação (claro está, jovens eleitoras do CDS). 

Uma parte das mulheres vem credibilizar as suas fantasias negras, defendendo que adoraria encontrar o seu príncipe encantado da Disney, belo e… honestamente, violador. É que a confiança é um traço masculino amplamente apreciado pelas mulheres, mas nas fantasias ele transmite-se mais facilmente por um jovem medieval engatatão enfiando a sua língua burguesa pela garganta de uma adolescente envenenada e incapaz de reagir. Meu infantófilo rato Mickey - isto é amor?
 (mais uma vez, fortíssimo potencial de design)

Não negligencio, no entanto, a versão pós-moderna do menino ideal, que tanta pipoca faz saltar. Um jovem,  maquilhado com farinha, envergar um ar autista feat. serial killer, abordar uma mulher e dizer-lhe “eu sou um vampiro que brilha à luz do sol” não é romântico, caro público anémico. Este sentimentozinho caquético de “a juventude está perdida” não se salva, nem de perto, pelo facto de pré-adolescentes, solitárias e curiosas, criarem um elo de ligação lógica entre hospitais, cães demasiado felizes e a descoberta casual do vácuo através de uma garrafa de plástico.

Em vaga reminiscência, diria também que a última definição de “romantismo” que tive oportunidade de rever num dicionário de língua portuguesa contemplava as expressões álcool e abertura fácil. Trata-se seguramente de uma referência ao champanhe e à possível ressaca amnésica. Mas o amor é isso, é a incógnita, é fogo que arde sem se ver, que lentamente nos escalda, mas assegura que voltamos para mais uma sessão de S&M. A sua fórmula? O grande dióspiro profeta resolve os vossos dilemas com nobre sapiência: CH3CH2OH.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Hoje é Quinta-Feira

Criatividade. Isto é algo de cuja falta muita gente se queixa e que eu ainda não entendi muito bem porquê. Originalidade, uma lampadazinha incandescente sobre a cabeça de um indivíduo, eureca, ou como o Jackass o entende, enfiar um carrinho de brincar pelo cu. Este conceito de surpreender com jeito é absolutamente familiar ao dióspiro, posto em análise que o conteúdo escrito tem origem no vudu super africano praticado pelo professor Mamadu. Especula-se mesmo que o estado português queira comprar excedente de criatividade diospírica para oferecer aos eleitores.


Pois bem, o conceito de criatividade é de uma subjectividade total que abre as pernas a objectos “artísticos” que nunca pensaste que coubessem. Refiro-me a pequenos nichos de iluminação da mente humana que já não se viam desde o papel higiénico com banda desenhada, tal o seguinte:

A farinha Amparo esmerou-se muito para além das famosas cartas de condução. Ao que consta, foram necessários cento e sessenta milhões (160.000.000) de visualizações para apreender que “sábado vem a seguir a sexta. Sexta. Sexta. Sexta. Sexta…”, evitando elaborar sobre o hamletiano dilema de “banco da frente ou banco de trás” que me leva a ponderar a profundidade desta criança.


Por infelicidade, a epidemia espirra até à sétima arte. A espontaneidade e irreverência esgotam-se para dar lugar ao mundo das sequelas. E o aterrador é que nem todas elas atingem o limiar da higiene pessoal, fazendo m**** e escarafunchando lascivamente na sua criação. Quando forem aos lavabos por uma actividade mais complexa que fazer chi-chi, por favor despejem a porra do autoclismo e, já agora, certifiquem-se de que sabem para que serve realmente o piaçaba. Sempre solidário, não posso deixar de referir que qualquer designação de filme que chegue ao número sete passa a reminiscência de um porno: “Toy Story 7”, “A paixão de Cristo 11”,  “O diário de Bridget Jones 69”, “Black beauty 7”, “À dúzia é mais barato …” esqueçam.

sábado, 4 de junho de 2011

Conveniente Amnésia

Numa linda noite de quase Verão dou por mim num colóquio muito simpático sobre dois temas tão aclamados: drogas e budismo. Nada de estranho, presumo, que tenhamos ficado umas duas horas em torno disto. E então, a que raios se deve esta cooperação temática? Do que me chegou, a mítica e balofa figura do buda nunca consumiu coca ou algo que se assemelhe ou estaria decerto um poucochinho mais magro e com uma silhueta mais apresentável. Pois bem, desprovido de sequência racional, eis a primeira premissa: é preciso estar bem queimado para entender a teoria budista.

       Antes de mais, eu até aprovo em muito da ideologia tibetana, mas acontece que há pequenas coisas que não fazem pandan com o meu Tico e Teco: “o vazio é a forma, a forma é o vazio”. Mas que mal fiz eu a Buda? Apesar de isto fazer pouco mais que soufflé na minha cabeça, cheira-me que já o ouvi em algum lado. Das duas uma - ou foi Fernando Pessoa num dos seus Programas de Estabilidade e Cirrose (PEC for short) ou terá sido algo proferido por um dos senhores nomeados na seguinte lista: Kurt Kobain, Sigmund Freud, Jimi Hendrix, Michael Jackson, Heath Ledger, Jim Morrison, Elvis Presley. Posso de boa vontade continuar a lista, caso tenha falhado a dose.     

No fundo, o budismo é uma filosofia do maior dos interesses, que nos revela o caminho do desapego emocional e do vazio da mente. Infelizmente, alguns de nós são tão bons a esvaziar a mente como o Bibi a esvaziar os tomates; é uma ligeira falta de método. Como bom samaritano, recordo a existência de uma pastilhinha mais ou menos porreira chamada Roofie, ou para usar os seus termos técnicos, flunitrazepam e date rape drug. Esta plausibilidade narcótica coloca-se como um remédio para mais males do que o seu folheto alguma vez se arriscaria a referir, possibilitando um esvaziamento mental para inúmeros fins. Assim, este célebre estupefaciente é comprovado em ritmo diário através do feedback dos consumidores. E cito: “Ontem à noite consegui meditar e senti-me iluminado. Obrigado, roofie!”; “Era virgem aos 34 anos, e todas as minhas noites acabavam em lenços de papel enrugado. Até que descobri o roofie!”; “Uma prostituta filipina insiste que me foi ao rabo ontem à noite, mas não me lembro de nada.”

Surge então um ponto importante: nenhum destes consumidores, satisfeitos ou não, cientes ou não, amnésicos ou… vocês percebem… - nenhum destes consumidores se viciou em droga. Por favor, droga-te com moderação.