A web é uma dádiva radiante, tão omnipresente quanto o Deus cristão. Para a geração de 90 e póstumos a vida antes da internet era um mito, de tal forma que o big bang e a internet se encontram par-a-par no que pretém à génese do universo. O tempo lúdico dedicado ao iô-iô é agora despendido em jogos online. A serenata à janela dos tempos medievais traduz-se actualmente em sites como e-harmony.com.
Esta cortesia americana oferece um facilitismo abismal ao dia rotineiro na cidade, graças ao fenómeno da globalização. Pizza? Net. Notícias? Net. Orgia interracial envolvendo a tua vizinha, tailandesas transsexuais e ovelhas amputadas em comboio? Net. Flores? Bairro Alto, mas só porque um asiático foi um dia ao Google Maps e descobriu que Portugal não fica realmente em Espanha (esse dia, adianto, é agora um feriado nacional no Paquistão).
Pessoalmente, equiparo a internet a coçar os tomates – é o que acontece quando estou no emprego e a frase do dia é “server not found”. Isto é engraçadinho e estúpido. Por um lado, sinto um maior contacto mariquinhas com a natureza e com o mundo porque se acabou o e-mail, o Facebook, o Google e todos os gatinhos malabaristas, sádicos e aparvalhados que daí advêm. No entretanto, seis pessoas num cubículo de escritório realizam uma tertúlia, ponderando se o coçamento ritual generalizado – e personalizado, esclareço – trarão a internet de volta.
A coisa fantástica acontece quando o indivíduo enfadado inicia um processo de teorização sobre qual a coisa estapafúrdia que lhe aufere o seu objecto de desejo: será que abrir o Firefox dez vezes consecutivas irá miraculosamente trazer a internet de volta? Será que foi a senhora do café de baixo que cortou a internet porque na última sexta-feira não comi o habitual croissant? Ou terá Deus ficado chateado comigo por… bem, não exageremos.
A moral situa-se num claro problema em lidar com a realidade quando, imaginando a vida há trezentos anos no passado, o dióspiro pondera se, não havendo iluminação eléctrica, os aristocratas iluminavam os seu portáteis com velas. E daí, o dióspiro é burro e precisa de internet para existir, tal como o senhor presidente da república que toma o privilégio de se dirigir ao público no seu website.
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