quarta-feira, 22 de junho de 2011

Dióspirofobia

O amigo José é um jovem senhor, adepto da vista noturna do Cais do Sodré, com a peculiaridade de ver no ser humano aquilo que via Thomas Hobbes – inata perversão. Tão travessa é a natureza humana que, parafraseando lealmente o senhor José, o homem é fonte de toda a maleita. Quando afirmei que “os pombos têm doenças”, prontamente fui retorquido com “os pombos não têm doenças - eles não têm doutores; não será o homem que lhes passa doenças?”. Essa é uma questão nunca antes colocada e lamento apenas não conseguir expressar o desarme suscitado pelo argumento em causa. 

O erudito senhor José nutre incessantemente o frágil senso comum humano com nobres eurekas, tais:
- “Acho parvo uma rapariga pintar-se e peidar-se sozinha.”
- “Dar um passo em areia movediça… não.”
- “Nós não ficamos doentes, os medicamentos é que têm efeitos secundários. Por isso eu não os tomo.”

Este guru sagaz observa-se vivo e a cores, ao contrário de um seu homónimo, personagem cinematográfico figurado n’A Paixão de Cristo. José nada teme. Nem doença, nem gases gástrico-intestinais; ele enfrenta os trilhos da vida, almejando o caminho do Bodhisattva. O destemido senhor disserta sobre as maldades do homem, relatando que nem uma delas lhe toca.

É, no entanto, humano ter-se medo. O temor de algo é da natureza humana como a fuga ao sol é patente num vampiro (ou era… Stephanie Buffy Meyer). Muitas colegiais hesitam em olhar para o lado oposto da cama a cada manhã; as crianças têm medo de crescer e os padres católicos têm medo que elas cresçam; um pequeno menino asiático teme ser esboroado pelos pais cada vez que falha uma tecla no piano. C’est la vie, o medo é mais omnipresente que Deus. Para terem uma boa noção: rectofobia (medo de doenças rectais), consecotaliofobia (façam um esforçozinho e… medo de pauzinhos chineses), genofobia (medo de joelhos; joelhos, porra). Claro está, alguns entre nós ficam-se pela cultura pop das fobias e dedicam-se a medos como ratos; coisa fraca.

Dióspiro? Tem apenas medo de amadurecer, de ficar mole, doce e fácil de ingerir. Seria coisa de choninhas.

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