quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Gripe F


Há, a meu testemunho, três coisas que movimentam multidões em Portugal: jovens indignados, a religião e o futebol. Isto é importante. São escassas as coisas que tiram a plebe tuga da sua apática rotina de rebolar no cocó refundido na relva. O povo tem um macabro apetite por maus-tratos, ao gosto de “au! Au! Está-me a doer. Meteram o meu dinheiro aos bolsos, cortaram-me o salário e tenho agora a opção de escolher entre transportes públicos ou jantar. Por acaso até sinto uma larica, mas acho que vou mesmo é apanhar o autocarro para a Luz e gritar 'BAFICA!!!' a noite toda.” 
 
Isto é paraplegia cerebral. A mente não anda ou tão pouco reage. Serei o primeiro fruto a dizer que o lazer é fundamental e que sem ele pouca piada as coisas teriam, mas o futebol transcende qualquer razão. Em primeiro lugar a televisão não tem culpa, não tem ouvidos e mesmo que tivesse duvido que tomasse insultos como combustível. Retomando, a única razão pela qual pelo menos 50% dos adeptos de um clube (poupem-me a crítica à estatística) escolhem dragõezinhos azuis, galinhas vermelhas ou lagartixas verdes deve-se a um vírus hereditário. Tenho também que enfatizar – e é lamentável que chegue a este ponto – o quão labrego é que se ponha a presunção de que um feto intra-uterino seja fã de coisa alguma, quanto mais sócio.

Agora, acima de tudo, sou obrigado a perguntar: qual é o real contributo da maioria dos adeptos? Atendendo aos nove dígitos que cada um dos três grandes (devedores?) baldam ao Estado, soa lógico que os adeptos contribuam individualmente com finanças para as grandes associações nacionais de apoio aos infortunados com um baixo QI. É de génio. O adepto não põe nem uma unha no relvado, grande parte nem ao estádio chega, e não obstante guarda a profunda fé de que todos os adeptos adversários são filhos de senhoras excessivamente maquilhadas que só laboram a horas mortas. É um jogo à parte. E estão todos gordos. Eles não jogam, não correm só por si e não correriam atrás de uma bola.

Quando um ser lerdo qualquer profere uma inépcia como “o FCP é a minha religião!” eu reflicto sobre como ele troca uma  seita por outra. Ambos nos fazem perder tempo sem propósito e levam-nos a esquecer que talvez exista algo de real que possamos fazer por nós e pelos outros.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Minha Deliciosa Paelha


Caros leitores,

As minhas desculpas pela ausência bissemanal de má escrita (ou de qualquer tipo de escrita, na verdade, mas vale a clarificação). Declaro-me abençoado após uma bela semana de férias ao longo da derradeira escola nacional da corrupção aplicada ao futebol – o norte de Portugal – e pela terra da língua porno – Espanha. 

Aprendi que no magnífico e belo Porto os homens são mais simples e amáveis, talvez pelas referida ingestão avultada de partes animais tomadas por incomestíveis pelo povo lisboeta. Em Espanha, por sua vez, as mulheres parecem gostar muito de fruta e referem-se mesmo a ela como cariño. Creio que é uma certa falta de bom senso que tratem dióspiros inóspitos e nunca antes vistos por esse termo; consigo quase jurar ter lido em castelhano ‘rebajas’ na testa das jovens latinas. 

Fora isso, Salamanca é uma cidade nauseabunda, curiosa, muitíssimo religiosa e um quanto violenta. Ao longo das várias catedrais sobranceiras há uma pequena divisão histórica dos crentes: as pessoas cuja carteira é do tamanho do traseiro de uma angolana e as pessoas que só comem pão e água. Os primeiros transpiram fé por todos os poros, ao passo que os segundos são uns egoístazinhos dum raio que não contribuem para o moralíssimo depósito de ouro da igreja. O resultado? Os ricos viam a missa, os pobres ouviam-na, no que parecia uma espécie de backstage.

 Ratifica-se também que os espanhóis são porcos e feios. Passa-se que na primeira universidade fundada, em tempos da famosa inquisição, havia uma condição distinta para que um aluno se pudesse doutorar: dirigir-se à praça das touradas e pôr término à vida de um pobre animal, dando seguimento a uma inscrição nas paredes da universidade com o sangue do dito. O que um curso académico tem em relação com a morte de um touro supera-me por anos-luz, mas parece que tudo em Espanha é um pretexto para se matar um touro:
- Señor Zapatero, tenemos una muy elevada tasa de desempleo; qué hacer?
- Mata a un toro. Hmmm… Oh, si...
- Pero, el ministro, la tasa es la más alta de la Europa…
- CALLATE! MATARÁS UN TORO AHORA!

Mas em notícia,  milhares de pessoas manifestaram-se contra as despesas do estado com a visita do papa a Madrid. E com isto, um grande cumprimento a Espanha. Talvez mandar o mofo Ratzinger para a praça de touros?

domingo, 7 de agosto de 2011

Greve de Meias

Hoje sinto um impulso prepotente para destroçar algo por palavras. “Criticar algo é criticares-te a ti mesmo”; sábias palavras, que nem cócegas conseguiram nos meus ouvidos mercantis. Mas há dias destes. Para mim há três tipos de jornada. Primeiro, o dia em que sim senhor, tudo é muito bonito e até a donzela dos enormes seios de odor a jasmim se senta ao meu lado no comboio desejosa de admirar a tonalidade encarnada do meu ser. Menos feliz, mas tipicamente tolerável, será o dia em que me esqueço de existir e atinjo o final da noite numa inútil reminiscência: “o que é que foi isto?”. Depois há sempre os dias em que, sem grandes reflexões, substituiria o meu pequeno-almoço de Cerelac por um pónei. Não sei. Tenho sono, tenho fome, apetece-me pónei. De preferência um que se acomode no forno.

No meio disto, apercebo-me de que existem também outros tipos de dia para além do bom, do mau e da Odisseia no Espaço. Há dias em que sofro de uma deficiência visual grave e não noto nenhuma t-shirt na gaveta além da primeira. Noutros, a resolução matinal passa por trocar de roupa o máximo de vezes possível, apenas para chegar à conclusão de que a primeira t-shirt provavelmente me faria um fruto mais feliz. E há os dias em que tenho uma carência de chocar toda a gente. Visto calças vermelhas, camisa escarlate e uns boxers mais encarnados ainda; “Oh! Um dióspiro nudista!”.

E eu não uso meias. Não sei se consta na vossa sabedoria, mas não uso meias. Disse que me apetece criticar algo, pois aqui vai: vou criticar a minha mãe. O lapso no uso de uma indumentária comum (com referi, a carência abismal de meias) não é voluntário. A verdade é que a árvore que me trouxe ao mundo crê que o mais microscópico poro numa soquete será razão para a enviar para o submundo. Eu decreto que umas meia sem buracos são como um par de All Star límpido e reluzente, um luxo demasiado snob para alguém tão imaturo.

A moral é que… Não há moral. Estou sem sumo.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Crise Cognitiva

Ao gigantesco acto grupal e pessimista de que a economia é, como dizer… uma m**** -chamamos de crise. Pessoalmente, dou conta de mais actos colectivos,  igualmente obscuros, mas que não geram de forma alguma o mesmo furorzinho ignorante que a crise.  A questão é que estas actividades são igualmente feias e porcas, dão um tesão menos aparvalhado ao povo tuga, mas são taboo. A crise é convenientemente mediática.

O Zé Povinho confere tudo o que lhe dizem. Tal como as gripes dos ornitorrincos e dos unicórnios, a depressão económica parece apenas mais uma história de conspiração à la Maria Amélia,  quando tomamos uns segundos para olhar em nosso redor e observar os preços exurbitantes que estremecem as mais viscerais grainhas de um dióspiro. “É a crise”. Ela crê-me nutritivo e quer papar-me, suponho?

Este post em particular cumpre dois objectivos. Dar uma de conspirador autista em metanfetaminas e retratar certas instituições, de forma notavelmente constructiva, como jogadores de mikado com parkinson. Há cerca de duas semanas, expelindo um doce aroma de fruta por Barcarena, encontrei-me na Universidade Atlântica. Este infindável poço de legitimidade académica não só pratica preços bastantes cómodos para os votantes do CDS-PP como se foca no nicho de mercado dos maiores de 23 anos. Abandonamos o sistema “o meu papá paga-me a faculdade porque eu não quero realmente estudar” e passamos para “eu já sou papá e acho sensual ter um diploma”. É a crise a lacerar as carteiras lusitanas. E o que tem esta instituição de errado? Enganaram-se no nome. “Universidade Atlântida” seria mais adequado: tendo em conta o quanto os alunos põem os pés nas aulas, podemos apenas assumir que tiram o curso por telepatia.

Passamos agora ao Jardim Zoológico. Este local de património nacional pede uns míseros 17€ por um bilhete, o que me arranca à bruta o conceito de elasticidade procura-preço. Será que o bilhete inclui um seguro de vida avultado e actividades dentro da jaula dos leões? A Fertagus, por sua vez, cobra 4.30€ de Lisboa a Setúbal, mas o seu grande negócio é mesmo o bilhete de Lisboa a Lisboa pela quantia de 1.40€.


Já a CP pratica também preços que tornam uma viagem de ida e volta Lisboa-Cascais um investimento de 7€.

Tudo isto se justifica quando pensamos que, pelo menos, o golf se mantém seguro a 6% de IVA e os nossos benfeitores do caso BPN nunca passaram a prisão efectiva. Mas sempre me ensinaram desde criança: “o que te aparecer no prato é para comer e calar.”