domingo, 7 de agosto de 2011

Greve de Meias

Hoje sinto um impulso prepotente para destroçar algo por palavras. “Criticar algo é criticares-te a ti mesmo”; sábias palavras, que nem cócegas conseguiram nos meus ouvidos mercantis. Mas há dias destes. Para mim há três tipos de jornada. Primeiro, o dia em que sim senhor, tudo é muito bonito e até a donzela dos enormes seios de odor a jasmim se senta ao meu lado no comboio desejosa de admirar a tonalidade encarnada do meu ser. Menos feliz, mas tipicamente tolerável, será o dia em que me esqueço de existir e atinjo o final da noite numa inútil reminiscência: “o que é que foi isto?”. Depois há sempre os dias em que, sem grandes reflexões, substituiria o meu pequeno-almoço de Cerelac por um pónei. Não sei. Tenho sono, tenho fome, apetece-me pónei. De preferência um que se acomode no forno.

No meio disto, apercebo-me de que existem também outros tipos de dia para além do bom, do mau e da Odisseia no Espaço. Há dias em que sofro de uma deficiência visual grave e não noto nenhuma t-shirt na gaveta além da primeira. Noutros, a resolução matinal passa por trocar de roupa o máximo de vezes possível, apenas para chegar à conclusão de que a primeira t-shirt provavelmente me faria um fruto mais feliz. E há os dias em que tenho uma carência de chocar toda a gente. Visto calças vermelhas, camisa escarlate e uns boxers mais encarnados ainda; “Oh! Um dióspiro nudista!”.

E eu não uso meias. Não sei se consta na vossa sabedoria, mas não uso meias. Disse que me apetece criticar algo, pois aqui vai: vou criticar a minha mãe. O lapso no uso de uma indumentária comum (com referi, a carência abismal de meias) não é voluntário. A verdade é que a árvore que me trouxe ao mundo crê que o mais microscópico poro numa soquete será razão para a enviar para o submundo. Eu decreto que umas meia sem buracos são como um par de All Star límpido e reluzente, um luxo demasiado snob para alguém tão imaturo.

A moral é que… Não há moral. Estou sem sumo.

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