Há, a meu testemunho, três coisas que movimentam multidões em Portugal: jovens indignados, a religião e o futebol. Isto é importante. São escassas as coisas que tiram a plebe tuga da sua apática rotina de rebolar no cocó refundido na relva. O povo tem um macabro apetite por maus-tratos, ao gosto de “au! Au! Está-me a doer. Meteram o meu dinheiro aos bolsos, cortaram-me o salário e tenho agora a opção de escolher entre transportes públicos ou jantar. Por acaso até sinto uma larica, mas acho que vou mesmo é apanhar o autocarro para a Luz e gritar 'BAFICA!!!' a noite toda.”
Isto é paraplegia cerebral. A mente não anda ou tão pouco reage. Serei o primeiro fruto a dizer que o lazer é fundamental e que sem ele pouca piada as coisas teriam, mas o futebol transcende qualquer razão. Em primeiro lugar a televisão não tem culpa, não tem ouvidos e mesmo que tivesse duvido que tomasse insultos como combustível. Retomando, a única razão pela qual pelo menos 50% dos adeptos de um clube (poupem-me a crítica à estatística) escolhem dragõezinhos azuis, galinhas vermelhas ou lagartixas verdes deve-se a um vírus hereditário. Tenho também que enfatizar – e é lamentável que chegue a este ponto – o quão labrego é que se ponha a presunção de que um feto intra-uterino seja fã de coisa alguma, quanto mais sócio.
Agora, acima de tudo, sou obrigado a perguntar: qual é o real contributo da maioria dos adeptos? Atendendo aos nove dígitos que cada um dos três grandes (devedores?) baldam ao Estado, soa lógico que os adeptos contribuam individualmente com finanças para as grandes associações nacionais de apoio aos infortunados com um baixo QI. É de génio. O adepto não põe nem uma unha no relvado, grande parte nem ao estádio chega, e não obstante guarda a profunda fé de que todos os adeptos adversários são filhos de senhoras excessivamente maquilhadas que só laboram a horas mortas. É um jogo à parte. E estão todos gordos. Eles não jogam, não correm só por si e não correriam atrás de uma bola.
Quando um ser lerdo qualquer profere uma inépcia como “o FCP é a minha religião!” eu reflicto sobre como ele troca uma seita por outra. Ambos nos fazem perder tempo sem propósito e levam-nos a esquecer que talvez exista algo de real que possamos fazer por nós e pelos outros.
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