sábado, 29 de outubro de 2011

Existencialismo Patológico

Há crónicas que interessam a algumas pessoas. Há histórias que interessam a muita gente. E há relatos que não interessam a ninguém que considere que dar toques de cabeça com um rolo de papel higiénico não é um hobbie. Aquilo que trago hoje é claramente a terceira. Não me levem a mal, mas dado que se trata da minha frutada vida e que, deveras, há fruta mais colorida que eu, há um limite cônscio do quão interessante ela pode ser.

Há uns dias surgiu a questão: “estás vivo?”. Ora quanto a isto tenho a dissertar o seguinte sermão: (e confiem quando digo que este é o termo aplicável): como c*******s é possível alguém morto dizer que está vivo? Ou seja, se quiseres confirmação de que determinado ser ainda respira aquele tal misto de oxigénio, hidrogénio e sessenta e nove gazes de autocarros a que chamas de “ar” podes sugerir uma questão de maior conteúdo. Por exemplo: “comeste batatas hoje?”. Se a resposta for sim, não só saberás que sim, estou vivo, como sabes também que 1. existem batatas na turquia; 2. os dióspiros comem batatas; 3. sim, estou vivo. Por outro lado, se a resposta for não, a tua mente será enriquecida com o ponto número três e um novo ponto que em muito mau tom te relembra o ditado “o conhecimento não ocupa lugar”.

Por outro lado - e por favor acompanhem-me com atenção – como pode alguém confirmar a sua própria vida? A vida e a morte são incompatíveis, pelo que não podem coexistir. A vida é a não-morte, a morte é a não-vida. De seguida põe-se a premissa de que alguém só poderá saber se está vivo quando morrer. Mas quando morrer, como poderei dizer que morri porque sei agora que estava vivo mas já não estou?

Alguém diz “ah, mas se respiras, se te mexes, etcetera é porque estás vivo”. Isto é obviamente uma asserção de cromagnon. Quantas vezes eu vi alguém muito cansado que disse “ah, estou morto”, ou que ouvi o meu amigo Henrique a relatar a sua própria morte cem vezes em vinte minutos enquanto jogava Counter Strike. E estes indivíduos continuam a mexer-se, pelo que assumo que muito provavelmente são hindus.

Finalmente, o facto de não estar morto de momento não significa que não o esteja num futuro próximo. Eu posso ser japonês e não fazer sol hoje – matematicamente os japoneses já cometeram suicídio por razões menores. Por outro lado posso estar com uma enxaqueca dióspirica, que é por sinal quase tão intolerável quanto a noção de código deontológico da Manuela Moura Guedes. Isso levar-me-ia a considerar que a eutanásia é realmente uma hipótese também legítima fora dos lares de terceira idade.

A moral da história é no entanto profunda. A vida é algo de relativo, belo, mas momentâneo. Estar vivo só por si não significa nada. Pessoas cujo físico não passa de um cadáver muito para além do limiar de putrefação, coberto de bichinhos não-tão-sexys e indiscutivelmente asquerosos, lembram-nos do que é estarmos vivos passadas centenas de anos.

E depois há pessoas vivas que fazem isto:

O que é que se passou aqui?

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