domingo, 13 de novembro de 2011

Fazê-lo no Elevador com Estranhos

Após a grande festa da passada semana, com direito a um fogo de artifício de tal calibre que faria Platão, Van Gogh e Ian Curtis espumar da boca, a saga continua. Há uns dias atrás brotou uma nova situação no alegríssimo contínuo diospirico de espaço-tempo: a mítica conversa de elevador. Um filtro social, um traço enfadonho do ser humano, psicanaliticamente designado por ego, é aquilo que nos torna – e com desprezo afirmo: pessoas normais. Pois acontece que o elevador não tem rigorosamente nada de peculiar e é na verdade o local propício para um estimulante diálogo; modestamente forçado, talvez.

Ora uma vez num elevador com um indivíduo idoso... Ou antes, de uns quarenta e poucos anos... Vá, não cheirava a bafio. Semi-apraltado com um fato cinza e uma gravata inventada pelas fadinhas, era seguro que este senhor não teria marcado presença na manifestação geração à rasca, em contraste com neo-nazis, empregados da Telepizza e o rafeiro alentejano do meu primo Jorge. Isto sabia-se porque o local da acção era não um elevador qualquer, mas o elevador de uma excelente clínica dentária. Excelente porque não fazem muito barulho com o WIIIIIIINNNNN (para os mais lentos em onomatopeias, refiro-me ao berbequim de meio metro com que um dentista viola bocas contra a lei da física).

Quando, para espanto mútuo, o elevador encerra toda a actividade à la CGTP, o meu novo companheiro de quarto olha compulsivamente de uma forma mentecapta. Um duo de segundos de pausa e exclamei:
- 'Ah! É uma pescadinha de rabo na boca!'
Contra a minha notável alacridade foi-me dado a entender que a resposta não era a correcta. Mas prossegui, entendendo que esta relação seria duradoura:
  • 'O que é que você acha quanto à homossexualidade?'
  • 'O quê?' - devolveu a pescadinha prontamente.
  • 'Sim. Eu cá sou bastante tolerante. E você, gosta deles?'
O senhor pareceu tão interessado no assunto que franziu as sobrancelhas para acicatar a concentração. Finalmente respondeu:
  • 'Suponho que não sou contra... Mas que raio de pergunta?'
  • 'Gosto da sua gravata'. Disse isto enquanto sincronizei um piscar de olho.
Mais uma vez a reacção foi positiva, já que ele espetou os olhos como um par de mamilos na Sibéria. Após a sua pausa, revigorei:
  • 'Imagine você que este elevador está prestes a cair. Vamos morrer – supondo, pois claro... Fazia-me um cafuné?'
A sua face expressou pouca convicção. Reafirmei:
  • 'Eu tenho uma luva'. A verdade é que tinha perdido a outra a fugir de uma velhinha que achou que o meu gorro cobria demasiado a minha cara para não pertencer a uma minoria social. 'Só com uma mão', insisti.
  • 'Suponho que sim', veio uma resposta pálida.
Imediatamente inquiri:
  • 'Onde?'
  • 'Onde tu quiseres!', exclamou o homem com excesso de entusiasmo.
E aí entendi porque é que as pessoas não conversam espontaneamente sobre estes temas no elevador e imediatamente me dei ao respeito:
  • 'Você é um grandessíssimo paneleiro.'




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