quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Bíblia Para Totós

Para muitos a religião é a criação de Deus, o dogmático profetismo que nos guia; para outros trata-se de um pequenino hipopótamo cor-de-rosa em narcóticos. Veramente, nem uma nem outra: a religião é bastante lógica. Assumir que Bíblia, Corão e amigos são um poço infindável de arco-íris literário é uma tentação de quase lascívia, mas inválida. Será também um tanto ou pouco estúpido considerar possível que tudo aquilo que a religião diz é uma paráfrase directa de um barbudo nas nuvens. Aquilo que todos terão que entender é que a religião é humana, e como qualquer coisa de humano trará consigo o bom, o mau, o feio e simplesmente estúpido.

Mas não julguemos sem consideração. O Corão, por exemplo, é altamente compatível com a ciência em muitos sentidos. A Bíblia é um bom conto de fadas escrito por sabe-se lá realmente quem, reescrita por mais gente que a população chinesa, deturpada por mais uma dúzia de macacos e representada por mais de três mil versões. Se Deus escreveu a Bíblia, das duas uma: ou metade da população terrena e respectivas mães receberam uma mensagem do senhor ou ele tomou a liberdade de possuir mais gente que Giancomo Casanova.

Ora, estas crenças incitadoras de muitas guerras, um pouco de compaixão e muitos donativos financeiros têm uma possível base virtuosa. Até a bíblia satânica inclui uns pedaços rechonchudos de sabedoria de vida que muitos psicólogos poderão certificar. Quando o Islão diz que tens que tomar um banho depois do sexo não significa que vais parar ao inferno se fumares o cigarro em vez de lavares os tomates; a ideia é que provavelmente é uma ideia higienicamente plausível lavares-te depois de suares como um suíno durante uma hora ou duas.

Deus é uma ofensa para a humanidade. Nem o podre do dióspiro e as suas pobres ideias em formato de blog (que credibilidade tem um blog, anyway?) é menos que Deus. Pecado é uma pobre desculpa para a existência do senhor num vestido preto ter dinheiro para comer. A verdade é que nem ele viu Deus uma mísera vez na sua vida, mas continua pobre de espírito a acreditar naquilo que lhe é conveniente. Se Deus existe, certamente não é a ofensivamente vil criatura que a maioria das religiões figuram. A homossexualidade é um pecado? O que é um pecado para começar? Ser anão é um pecado? Fazer amor com alguém por uma razão para além da procriação é criticável?

Aprendam o que é, realmente, amor, parem um pouco para viver e parem de fazer um felicíssimo chichi na cama porque um senhor moribundo, tão divino quanto uma formiga que vos está a fazer cócegas no umbigo, decidiu ir a África falar em nome de Deus em promoção da propagação do HIV.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Maldita Máquina do Tempo

Todos nascemos e morremos. Entre estes dois polos dolorosamente óbvios permanece uma história. Quando grandes homens como os irmãos Grimm ou Hans Christian Andersen proferiram as mais-que-épicas palavras “e viveram felizes para sempre”, encadeadas com cola de açucar e decoradas com coraçõezinhos,  esqueceram-se da nota de rodapé. Bazinga. A tortura mais brilhante da evolução do tio Cronos é o facto de ele nunca voltar a trás. Este capataz faz questão de nos ensinar mais que muito, quer queiramos, quer não, com a ligeira nuance de um asqueroso desfasamento temporal entre sabedoria e consequência. Graças a isto, a lotaria mantém-se a pérola dos porcos e a roleta russa o jogo mais engraçadinho de sempre.

Mas imagina que podias voltar atrás. Voltar atrás e dizer a ti mesmo/a “olha que a Susana tem herpes”, “dia 18 de Março de 2003 não vás para a escola sem tomar um Ultra-Levure” ou “se não tivesses desistido do liceu talvez não estivesses a limpar o sobejo ressequido do excremento público, sua fraca desculpa para um atraso mental com pernas”. Será que a tua vida seria diferente?

A vida serve para aprendermos com os nossos próprios erros. Mas não seria credibilidade bastante o tu do futuro comunicar “coço os meus genitais mais por dor que por gozo a cada cinco minutos, perdi o amor da minha vida desde que me descuidei em volumes audíveis em frente a uma audiência de trinta pessoas e só não me suicido com químicos de saneamento porque já lhes ganhei imunidade a limpar sanitas”?

Não haveriam crises económicas sem especulação, o próprio sistema económico capitalista seria impossível e relançando muito brevemente umas estatísticas de divórcios diria que neste mundo estilo Minority Report ninguém se chegaria a casar. Quem é que beneficiaria com um mundo assim? Deixando Santana Lopes no estatuto de menção honrosa a resposta é... ninguém. Acontece que o o efeito borboleta ganharia um complexo de dildo e se dedicaria uma diligente sodomização geral, o que não seria do apreço de ninguém que não os incontáveis shemales turcos.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O Caminho Para a Felicidade

Uma universidade privada na Turquia prova-se, passo a passo, como uma enriquecedora fonte sapiente da eclética mente que representa Eva no mundo. No caso da mítica, convidativa figura que levou – segundo reza – Adão ao pecado, a roupa não era uma opção. Diospiricamente falando, Adão nunca teve grande chance neste jogo mais hormonal que moral. Mas grandes homens, num extenso plural, vieram a sofrer o trauma da complexidade feminina. Não há relatos sobre se Eva ofereceu ou não grandes barreiras psicológicas à ordem natural da relação entre homem e crise existencial personificada.

A complicação inerente a uma mulher é intemporal, evolutiva como um vírus e geograficamente intransponível; por outras palavras, cada mulher aprende a ser complicada numa base cultural. Se alguma vez me queixei da versão portuguesa, entidade sobrenatural inexistente me perdoe: bem vindos à Yeditepe Üniversitesi.

Yeditepe é, como o prólogo sugeriu, uma universidade privada, por sinal esteticamente atraente e repleta de maquilhagem num continuum de L'Oreal a Tuli Creme. Cinquenta por cento dos carros estacionados no parque interior são BMW's, Mercedes ou Porches... brancos. Existe uma justificação plausível: acontece que a palavra Porche é uma espécie de abre-te sésamo para as raparigas de Yeditepe. Um “abre-te sésamo” no entanto muito relativo, quando graças a esta nulidade chamada religião a pureza de uma mulher é consequentemente julgada com base na preservação da sua cerejinha.

O que acontece então? Imaginemos que Mustafa quer enviar uma carta. Como é lógico ele dirige-se ao local naturalmente indicado para o efeito – o posto dos correios; no entanto ele é prontamente informado: “aqui não podes enviar uma carta”. Como Mustafa é bastante persistente, um armazém bastante distante, cujo propósito até à data se limitou à recepção de mercadorias alimentares, teve pena do jovem e decidiu aceitar a sua carta. Mas Mustafa continuou a enviar as suas cartas e este armazém ficava tãaaaao longe, e porque estava vocacionado para recepção de mercadorias as cartas de Mustafa acabavam nos sítios mais macabros. Mustafa insistiu com o posto dos correios, considerando um desperdício dos fundos do governo que esta estação não aceitasse as suas cartas, mas a resposta, essa, - imóvel. Eventualmente, uma fábrica de chocolate, desta vez mais próxima, ofereceu-se para receber as cartas: era uma estação velha, escura e claramente inexperiente. Esta estação disse para Mustafa: “até agora nunca recebi uma carta, eu normalmente envio e não recebo”. Mas a fábrica recebeu com sucesso a carta de Mustafa, apesar de estar inicialmente receosa quanto à ideia. E as de trinta e quatro outros meninos depois dele. No espaço de um mês.

Mas o importante é que o posto dos correios estruturado e construido com toda a tecnologia indicada para a admissão e acomodação de cartas, com um serviço de apoio ao cliente naturalmente fluente e o tipo de proletariado que morre de felicidade por amor ao seu trabalho... não receba uma carta.

Ámen!