domingo, 29 de maio de 2011

A Culpa é da Regina

A linha de Cascais tem uma vista lindíssima sobre o rio, mas tem também a peculiaridade de esporadicamente apresentar um quadro menos comum. Hoje, 29 de Maio e dia de sei lá o quê, o passeio marítimo de Algés albergou aquilo a que me vou referir como a marcha cor-de-rosa. Esta marcha consistia em, liminarmente, milhares de gorduchas com t-shirts cor-de-rosa – lá está – passeando-se em direcção ao nada, numa correnteza de um quilómetro ou mais. Ao passar os olhos penso “lésbicas”, mas com um pouco de realismo e perspicácia me apercebo de que ainda é cedo para isto. Numa linha lógica de raciocínio, prossigo: senhoras bolachudas de meia-idade, em fartura, numa caminhada? Querem ficar magras.

E agora peço que me desculpem, mas honestamente tentei fazer o T.P.C. e descobrir de que se trata esta marcha que reuniu milhares de mulheres paralelamente à minha linha de comboio – e falhei miseravelmente. Vou então assumir que realmente isto passou por uma daquelas marchas contra o colesterol, saúde da mulher ou bem-feituras similares. E tenho a dizer que é uma excelente iniciativa de muito mau carácter; é que com certeza chamam a isto “o dia da saúde” ou, com alguma maldade, “o dia da mulher que quer ser magra”, que claramente tem sido levado de uma forma séria – e literal. Portanto, tal como o Natal, devia ser todos os dias. Ainda assim confiro o devido crédito à fabulosa produção de tanta t-shirt XL. T-shirt essa que ainda não consegui ler, mas certamente contém propaganda ao Oceanário de Lisboa.

É feio gozar com as características dos outros. E giro também. Pois alguém um dia propôs um meio-termo em que cada indivíduo gozasse apenas com outros que padecessem da sua mesma condição. Esse mesmo tipo não passava de um energúmeno: para além de esse sistema ter uma determinação maquiavélica de tirar a piada toda às coisas, apresenta uma grande falácia – balofo goza com balofo, feio goza com feio, menino autista não goza com rigorosamente ninguém.

Não me querendo alargar, quero dar o meu contributo a este dia, já que parece que ainda não fiz nada por ninguém hoje. Descobri a causa da obesidade no Pingo Doce de Picoas, e a culpada é a marca de chocolates Regina:

Que c*****os?

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Uma Diferença Animalesca

                Temos umas eleições legislativas muito honestas e transparentes pela frente, segundo certos candidatos. Tomei portanto a liberdade de averiguar por que nomes passam estes núcleos de sinceridade quando se candidatam à assembleia da república. Tenho a dissertar sobre o PAN – ‘Partido pelos Animais e pela Natureza’, que recebe agora uma dignificante segunda menção neste blog. A sério? O Partido dos Verdes está a ganhar terreno, logo, creio que a sugestão óbvia é constituir outra facção em defesa do direito à cor; é que pensando bem, eram só dezanove partidos, e eu gosto mais de azul que de verde. Derivo que o seu slogan poderia muito bem ser “nem todas as formigas são iguais – há umas mais pequenas que outras”. São formigas, seus asnáticos mesclados.

                Ponderei e vejo que se trata de um caso atípico de um complexo de Édipo, de filho para mãe, entre o senhor líder do PAN, Paulo Borges, e a rinoceronta do Um Bongo
O seu plano será com certeza provar-se no mundo dos animais, com vista a um dia voltar a erguer o leão como rei. Este “partido pelos animais” é um partido monárquico metafórico, de uma transparência… opaca. Agora isto sim começa a ser política a serio.

                Noto que dentro desta mixórdia de ideologias cerca de oito fazem Karl Marx rebolar na sua cova (uma expressão realista e que em muito me agrada), enquanto um partido se mostra persistente numa seita de culto ao espírito de D. Carlos: o Partido Popular Monárquico. 

                Suspeito de um sério desfasamento temporal na política portuguesa. Enquanto o PPM vive em 1908, o Partido Nacional Renovador (PNR) mora por volta dos anos trinta em terras germânicas, e consigo quase garantir que se alguém informar Francisco Louçã de que já não estamos em 1974 ele irá vociferar um guincho estridente e evaporar-se, em estilo de paradoxo.

                Em jeito de conclusão, eu devo estar também erradamente datado por ainda viver na época em que alguém pela primeira vez disse “a união faz a força” e outras mariquices dessa laia. Vocês sabem; a laia do senso comum, que me confere poderes de vidência que consentem já a dar-vos um prognóstico das eleições do dia 5 de Junho. E passo a enunciar em tédio: PS ou PSD.

sábado, 21 de maio de 2011

Austeridade Textual

 
Algo me tem vindo a intrigar desde a fundação deste blog. De entre a maravilhosa amálgama crítica a esta paspalhice literária, há um ponto de consenso: estes textos estão obesos. 

Tal coisa perpassa-me. Em primeiro lugar, sou obrigado a deduzir que houve quem chegasse a fazer scroll, numa espécie de curiosidade patológica. Depois, acontece que durante grande parte da minha vida me foi dado entender que maior é melhor. Nunca pensei realmente porquê, mas tenho tomado essa doutrina com seriedade em mais ramos do que faço questão de partilhar convosco. Mas vejamos: quando o Jorginho arrecadava uma prenda de menor volume que a do Joãozinho (e sejamos sinceros, as crianças têm olho para isto), o que acontecia? Ouviam-se referências pouco inocentes à mãe do Joãozinho como uma carismática senhora de esquina e o ‘tadinho do puto já ia para casa com um dente a menos, naquilo que posso apenas assumir que seja uma compensação do universo. Sim, uma compensação, Jaques’s de la Palice deste mundo. Está cientificamente provado que “nada se perde, tudo se transforma”, e na prática todos temos a menos numa coisa para termos a mais noutra, tal como os meninos do Biafra passam fome mas vivem menos e as mulheres inchadas são dotadas de colossais seios. Não querendo divagar, matutei que esta lei da compensação me administrasse algum tau-tau, e eu gosto disso. 

Enfim. Devotar-me-ei em amputar um pouco mais os meus posts, já que foi provado que este blog não precisa de pernas para andar. Talvez então o espectro de adeptos desta deliciosa heresia se alastre para além do estereótipo do sujeito solitário, que derrete cera de vela para os próprios mamilos na busca do prazer, ou do tipo de pessoa que se ri ao pesquisar o significado de zoonecropedofilia no Google. Francamente…

terça-feira, 17 de maio de 2011

Apêndices

                Há uma coisa que eu honro veementemente, um autêntico dogma para o género masculino em todo o mundo. Discorro sobre uma lei invisível, uma prova de ética, moral e respeito, que somente o mais mesquinho e bolorento ser ousa quebrar. Pois peço-vos que atentem àquilo que vos digo: aconteceu-me defrontar tal ser. Um jovem poisou tal abelha numa flor, calma e comodamente, no urinol ao lado do meu, quando nada o obrigava. Foi com horror que o ouvi abrir a sua molesta braguilha, esforçando-me por não olhar. Ele não parou e não pensou; senti-me violado.


                Mas este belzebu escsiano poucos pruridos teve em repetir a façanha. Fê-lo uma, duas, três, e à terceira não foi de vez. E foi aí que tomou iniciativa de olhar para o lado. Vou-vos dar uma disposição do cenário para que entendam bem a extensão do meu tormento, recorrendo às possibilidades dos meus conhecimentos de Illustrator e Photoshop.


                (Como podem calcular, eu não olhei para ele, porque sou muito homem. Vá, olhei um pouco pelo rabinho do olho, mas só porque sou valente.)


                Vocês indagam então: “ele olhou para a direita – certo?”. Pois, não, madre santíssima! Ele olhou ostensivamente para a esquerda e para baixo. É um género de cereja no topo do bolo enquanto a minha virtude urinolesca é hediondamente extorquida.


                Já no ginásio, a história é outra. O que aconteceu a todo esse acanhamento de mostrar e ver pilinhas? É algo que me recorda daquelas donzelas, de uma timidez tão legítima, que assim que o seu truque pega tiram as cuecas mais rápido do que eu consigo dizer coito. É que no balneário sou forçado a enxergar pequenos pêndulos, abatidos e datados, a bambolear-se por ali fora. Tratá-los-ei por apêndices durante o restante desta pequena prosa tendo em grande atenção o nível de decência deste pretenso blog. 


Ora estes apêndices espelham-se (e espalham-se) nos azulejos, quer do chão, quer da parede, não dando um descanso solitário à minha mente pudica (pu-dí-ca). Proponho então algum meio de profilaxia com fim a evitar a degradação do corpo humano: a questão é que por muito que queiramos voltar às origens e pôr tudo au naturel, há coisas que são – querendo ser eloquente, feias. É o testemunho de uma população envelhecida e o cheiro a mofo prolifera-se.


Por favor: da próxima vez que fores a um local público tomar banho não baixes os boxers, ou santo ateu te perdoe, as cuecas. A não ser, claro está, que pertenças à classe das mulheres entre os 18 e os 35; mas honestamente não consigo pensar em muitas razões lícitas ou lógicas para estares no mesmo balneário que eu.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O Fim da Linha

AVISO: Se achas acidentes de atropelamento um assunto sensível, este texto não é para ti.

                Atropelamento por um comboio: o fenómeno de um indivíduo passar pela experiência de ser violentamente trilhado por uma bisarma mecânica. Eis uma forma digna de se dar início a algo de novo: começar pelo fim! Literalmente. Pessoalmente acho isto pomposo, afinal de contas a morte sempre foi uma questão bastante emblemática, ou mesmo carismática (sim, ciganos, falo convosco).


                E daí, adianto-me. Quem postulou esta causa-efeito de que o esborrachar, para aplicar um termo maciozinho, dos ossos e vísceras de um ser humano levam inequivocamente a uma viagem ao purgatório? Eu, claro. Mas não querendo ser redundante, eu sou parvo. Este bê-á-bá cortês de um comboio de muitas toneladas e muitos metros – vá, grandinho – passar por cima de um senhor ou senhora (ou menino ou menina, sejamos razoáveis) pode não ser mais que um deparo bastante incómodo, mas não tão fatalista assim. Por obra e alma, não do destino nem do espírito santo, que não há cá dessas mariquices, mas sim da pulcra natureza humana de sobreviver e lutar pela vida, sucede o evento de um homem se sentir metade da pessoa que era, mas ainda assim vivaço; e com razão, diga-se.


                O mais estranho, porém, é quem o faz de uma macabra vontade própria. Ora, sejamos lógicos por um instante: a minha vida tomou um gosto áspero – assim, tipo, dióspiro: a minha pensão diminuiu, o intrujão e trafulha senhor Sócrates corre certos riscos de vir a ser reeleito quando eu fazia tenções de apoiar o recém-formado PAN (Partido dos Animais) para beneficiar de descontos nos impostos em função dos meus únicos amigos no mundo, os meus quatro cães, que padeceram em simultâneo a terça-feira passada. Tudo isto é suportável. Afinal, "tudo vale a pena quando a alma não é pequena", mas eis que… aumentaram o preço do meu passe? P’o c******.


                Sejamos justos. Existe uma réstia de coerência nesta última premissa. Afinal, quem persiste em falecer, para usar um palavreado muito pouco adequado, talvez não se importe assim tanto de se tornar Chocapic®. Aquilo que mexe realmente comigo, que ceifa um pouco de mim, é quem morre sem querer. “Oops, aconteceu”. Desculpem, piada parva e de mau gosto. A citação legítima será “olha um veículo grande e comprido que faz questão de emanar um aviso audível e até ensurdecedor para sinalizar a sua presença caso eu tenha falhado miseravelmente em notar que estou a caminhar por cima de carris, na linha do… ajudem-me… comboio”. Pronto, já saiu; e como tal, privo-me de atirar para o ar uma piada sobre a Helen Keller. Por favor não insistas.


                Tudo isto apenas para concluir com uma sugestão: olha para a esquerda e para a direita. É uma ideia proveitosa em todo o caso menos aquele em que queres, digamos, morrer. Aí talvez seja melhor não olhares, digo eu. Mas quem sou eu para dar concelhos? Aproveitaria este momento para pedir um minuto de silêncio pelos menos afortunados, no entanto acontece que vivo muito perto da linha do comboio e parece-me contra-produtivo pedir-lhes que façam pouco barulho.